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Entre urnas e algoritmos: o sentido de votar no século das máquinas

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O Brasil aprendeu a votar antes de aprender a confiar. A cada eleição, repetimos o rito: filas, cabines, urna, boletim. Tudo parece funcionar, mas algo se move no subterrâneo — uma mistura de cansaço e desconfiança. A tecnologia evoluiu, os sistemas se sofisticaram, e mesmo assim o sentimento de pertencimento parece diminuir. Votamos muito, mas participamos pouco. Nos bastidores do processo eleitoral, há uma rede de atores e forças que moldam o que chamamos de democracia: a Justiça Eleitoral, os partidos, as candidaturas, o Ministério Público, a imprensa, as plataformas digitais, os financiadores, as comunidades, os eleitores. Todos coexistem em tensão — disputando não apenas votos, mas atenção, linguagem e verdade . O coração do sistema, a Justiça Eleitoral, carrega uma virtude rara: é tecnicamente sólida, exemplar em transparência e eficiência. Mas há algo que ela ainda não alcança sozinha — o imaginário coletivo . A confiança não nasce apenas da técnica; nasce da compreensão. E...

A Geometria da Propaganda: o uso político do IEG-M e a deformação do saber público

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  “Toda vez que o poder usa o espelho da imprensa para se admirar, o povo desaparece da imagem.” A manchete de capa do Diário de Suzano , estampando a frase “TCE reconhece Suzano entre as 25 cidades de SP com melhor gestão efetiva” , oferece uma oportunidade preciosa — e preocupante — de reflexão. Não se trata apenas de uma notícia. É um ato simbólico de poder , em que a forma jornalística e a presença institucional se fundem num mesmo gesto de autoafirmação política. Na fotografia, o prefeito divide o enquadramento com o presidente da Assembleia Legislativa, o governador do Estado e membros do Tribunal de Contas. A composição visual, emoldurada por bandeiras e cortinas vermelhas, encena uma liturgia do prestígio público . Mas por trás do cerimonial, há uma questão epistemológica central: quando o Estado se fotografa a si mesmo como virtude, o conhecimento público é substituído por imagem — e o jornalismo por testemunho de fé.   I. O fato e sua metamorfose simból...

Quando a Análise Vira Diálogo: o Blog em Conversa com a Cidade

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Há momentos em que o pensamento deixa o papel e ganha voz no mundo. Foi o que aconteceu recentemente, quando um dos textos publicados em nosso blog — Análise Epistemológica da Notícia — atravessou as fronteiras da tela e se tornou tema de debate entre leitores atentos. Tudo começou com a constatação simples, porém grave: a manipulação da notícia travestida de jornalismo. Um leitor, ciente da sutileza desse jogo, escreveu: “Embora não seja mentira, isso passa de uma simples informação, que é pública, para uma propaganda. Isso é um método. Infelizmente os jornais locais para sobreviverem se prestam a esse papel.” Essa frase poderia muito bem servir de epígrafe para toda uma época. Reconhecer que há método na manipulação é reconhecer que o discurso — quando destituído de ética — torna-se instrumento de poder. É perceber que a notícia, antes espelho da realidade, pode ser usada como cortina. A resposta, publicada ali mesmo na conversa, tentou recolocar a razão e o afeto no mesmo c...

Análise Epistemológica da Notícia – Aplicação do Método “Geometria dos Saberes”

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I. O Objeto de Estudo: o discurso jornalístico travestido de neutralidade A matéria — “Suzano é homenageada pelo Tribunal de Contas entre as 25 cidades paulistas com melhor gestão efetiva” — apresenta-se como fato informativo, mas carrega uma estrutura de linguagem que excede o campo da ciência da informação e se aproxima do campo da política simbólica . À primeira leitura, parece um texto neutro. Porém, o modo de enunciação, o uso de fotografias e a ausência de questionamento configuram uma transferência simbólica de prestígio : do Tribunal de Contas (instituição técnica) ao governo municipal (agente político). Trata-se, portanto, de uma operação epistemológica de confusão entre campos — onde a ciência e a política deixam de dialogar criticamente e passam a se fundir de modo ilegítimo. II. O vértice predominante: a Política Pelo método da Geometria dos Saberes , cada fenômeno pode ser analisado segundo o vértice que o domina. Neste caso, o texto pertence ao vértice Políti...

Quando a Notícia Deixa de Ser Jornalismo

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  “Quando a palavra se vende, o silêncio governa.” — Fragmentos para uma genealogia da vida comum A imagem acima, publicada em redes sociais sob o título “Suzano é homenageada pelo Tribunal de Contas entre as 25 cidades paulistas com melhor gestão efetiva”, circula como notícia. Mas, na verdade, trata-se de algo mais delicado — e mais perigoso: uma peça de propaganda travestida de jornalismo . Nos últimos anos, tornou-se comum a confusão entre comunicação institucional e jornalismo. O poder político e econômico aprendeu a vestir suas mensagens com a forma da notícia, o que lhes confere aparência de neutralidade e verdade. Mas quando uma manchete se constrói para celebrar o poder , e não para informar o público , o jornalismo deixa de cumprir seu papel essencial: o de garantir o direito das pessoas à verdade . A ética jornalística nasce do compromisso com o interesse público. Quando uma comunicadora ou veículo se coloca a serviço de um governo, renuncia a essa função e contr...

SEGUNDA CARTA PÚBLICA À SOCIEDADE DE SUZANO

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Por uma Política de Reconhecimento e Coragem Cívica “Toda cidade é o retrato de sua consciência. O poder que a domina é o reflexo daquilo que o povo tolera, mas também daquilo que o povo é capaz de transformar.” — Fragmentos para uma genealogia da vida comum   Um convite à cidade que queremos compreender Suzano, nossa cidade viva, que pulsa entre montes, rios e avenidas, carrega em si tanto o peso de sua história quanto a promessa de seu futuro. Somos uma comunidade de muitas origens e trajetórias, marcada pela luta do trabalho, pela fé, pela diversidade de bairros e sonhos. Mas há momentos na vida de um povo em que o amor pela cidade precisa se transformar em lucidez — e o afeto, em coragem. Esta carta nasce desse sentimento: não para acusar, mas para convidar cada pessoa, instituição, coletivo e servidor a olhar de frente para o que nos tornamos. A cidade só será realmente nossa quando formos capazes de compreendê-la por dentro — com suas grandezas, suas contradições...

CARTA PÚBLICA À SOCIEDADE DE SUZANO

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Pelo Fim do Assédio e da Captura Política na Administração Pública Municipal   “A autoridade é justa quando serve ao bem comum.  O poder só é legítimo quando nasce do dever de cuidar." 1. Introdução: o sentido republicano da autoridade O papel da autoridade pública é essencial para garantir o equilíbrio no exercício do poder e a efetividade do direito das pessoas. Cabe-lhe zelar pela harmonia entre os Poderes, pela eficiência das funções de Estado e pela integridade das instituições que asseguram a justiça, o bem comum e a continuidade das políticas públicas. Tal responsabilidade não se limita à gestão técnica ou ao cumprimento formal de atribuições: exige compromisso com os princípios republicanos, fidelidade aos valores democráticos e uma vocação política enraizada na escuta, na transparência e no serviço ao povo. Exercitar a autoridade, nesse sentido, é reconhecer que todo poder só é legítimo quando se converte em dever — o dever de proteger direitos, promover a i...