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Raul Brasil permanece, viva e ferida. Memória e dor.

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Há datas que nascem duas vezes. 13 de março, para mim, sempre foi origem — o marco silencioso de ter chegado ao mundo, de ter sido lançado ao tempo, às possibilidades, às relações que constroem o que sou. Durante anos, essa data carregou a leveza discreta dos começos: um dia que, mesmo simples, afirmava a continuidade da vida. Mas em 2019, esse mesmo dia foi atravessado por outra inscrição. Na Escola Estadual Raul Brasil, algo se rompeu de forma brutal. A cidade de Suzano, que já habitava em mim como território de pertencimento, tornou-se também território de luto. Não era mais apenas o meu dia — era um dia marcado por ausências, por nomes interrompidos, por histórias que não puderam continuar. Desde então, 13 de março deixou de ser um ponto fixo. Tornou-se um campo de tensão.  Há, de um lado, a vida que insiste — o fato simples e profundo de estar aqui, de continuar, de atravessar os dias. Há, de outro, a memória que pesa — não como algo que escolho lembrar, mas como algo que se i...

O Processo do Custo e a Jornada 6 x 1

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Disseram-lhe que a economia estava doente. Ele perguntou onde doía. Responderam: no custo. Não houve exame clínico. Não houve ausculta. Não houve análise estrutural. Apenas um número foi apresentado, grave e solene, como se carregasse a própria essência do organismo social. O número era alto. Sempre é. Desta vez, porém, o número tinha origem identificável: a suspeita de que a jornada 6 x 1 pudesse ser alterada. Cinco dias de trabalho para dois de descanso já pareciam excessivos para alguns. Havia quem sugerisse redistribuir o tempo. Havia quem falasse em saúde, convivência, dignidade. O tribunal foi convocado. Ele tentou entender. — Mas a economia não é produção? Não é troca? Não é circulação de bens, tempo e energia humana? Olharam-no com paciência técnica. — A economia é custo. E reduzir a jornada aumenta o custo. A frase foi dita com a serenidade de quem descreve uma lei da gravidade. Ele recordou-se de ter lido que produtividade podia crescer. Que reorganizaçõ...

O mundo ainda tá aberto! 2026 como tempo de escolha.

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Entramos em 2026 sem garantias claras do que virá pela frente. Não há mapas seguros nem promessas tranquilizadoras. O mundo, que parecia caminhar para algum tipo de estabilidade mínima, voltou a se mover de forma errática. As coisas seguem acontecendo, às vezes rápido demais, outras de modo quase invisível, mas sempre exigindo de nós algum tipo de posicionamento. O que antes parecia absurdo passou a ser administrável. A crise deixou de ser exceção e virou parte do cotidiano. É tempo, portanto, de escolha. Não no sentido grandioso das palavras de ordem, mas na dimensão concreta da vida: como seguimos organizando o trabalho, o cuidado, a política, o aprendizado. As escolhas já não se apresentam como caminhos claros; aparecem como desvios possíveis em meio a um terreno instável. Escolher, hoje, é mais próximo de assumir riscos do que de seguir certezas. A tecnologia segue avançando, mas de forma desigual. Produz conforto para alguns, precariedade para muitos, dependência para quase todo...

O altar, o sonho e a necessidade mítica da cultura

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Há algo na cultura que antecede a forma, a lei e a razão. Algo que não nasce da escassez, mas do excesso. Antes de qualquer organização social, antes da técnica e do discurso sistemático, o humano parece ter intuído a necessidade de um lugar — um ponto de suspensão — onde a vida pudesse ser colocada diante de si mesma. Esse lugar é o altar. Não apenas o altar religioso, mas o altar simbólico: o espaço onde o mundo é interrompido para que um sonho possa ser acolhido. Essa necessidade não é abstrata. Ela é quase orgânica, intestinal. Como se a consciência, ao se descobrir lançada num mundo instável e finito, precisasse erguer um eixo em torno do qual o sentido pudesse circular. O altar não é, em sua origem, um instrumento de poder; é um dispositivo de cuidado. Ali, algo frágil é depositado — uma imagem, uma esperança, um temor — para não se perder no fluxo indiferenciado da existência. O que se coloca no altar é sempre um sonho. Não um devaneio qualquer, mas aquele sonho que insiste,...

Tránsito Soto, Márcio Alvino e a permanente exclusão

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Há personagens que não pedem licença à história; operam nela. Tránsito Soto, em A Casa dos Espíritos , é uma dessas figuras. Ela não governa, não legisla, não moraliza. Conhece os atalhos — e por isso atravessa. Sua força nasce do colapso: quanto mais frágil o centro, mais indispensável a margem que resolve. Esse é o ponto de contato com um tipo de poder contemporâneo que, no Brasil, se consolidou após 2016: o poder que administra a exclusão em vez de superá-la. No filme, quando a ordem formal entra em crise, é Tránsito quem garante passagem. Não por virtude abstrata, mas por inteligência prática. Ela é a ética da sobrevivência em um sistema injusto. A narrativa não a romantiza: expõe o paradoxo. Sua eficácia depende da permanência da injustiça. Se a estrutura mudasse, o seu lugar deixaria de existir. Transponha o mecanismo para o presente. Em muitas cidades, APAE(s) e Santas Casas tornaram-se casas institucionais da carência: salvam vidas, acolhem famílias, sustentam o cotidiano — e, ...

Padre Júlio: agonia, angústia e liberdade

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Há acontecimentos que não se encerram no fato, na notícia ou nas conversas. Eles permanecem vibrando, como um ruído baixo que atravessa o cotidiano e altera o modo como respiramos. Nos cutuca e nos desafia. O ataque sofrido por Padre Júlio Lancellotti pertence a essa ordem. Não é apenas um episódio político, nem apenas uma crise eclesiástica vergonhosa. É um acontecimento que nos alcança por dentro, produzindo agonia e angústia, deslocando o eixo do que julgávamos seguro. A agonia surge primeiro. Ela é quase física. Um aperto silencioso diante da constatação de que alguém que encarna, com rara coerência, o núcleo ético do Evangelho — a presença junto aos pobres, a defesa incondicional da dignidade humana, a recusa da exclusão — torna-se alvo de perseguição pública. A agonia nasce quando percebemos que aquilo que deveria proteger — a cidade, a política, a própria Igreja — se move, por ação ou omissão, contra quem testemunha o essencial. É a sensação de sufocamento que emerge quando o ...

Suzano entre Feridas e Futuro: o que revelam Raul Brasil, a violência e a Várzea do Tietê

da tragédia da Raul Brasil ao aterro clandestino na Várzea: por que Suzano se tornou símbolo de uma crise que ultrapassa a cidade e atinge a própria ideia de civilização. Suzano vive um ciclo contínuo de golpes contra a vida. Desde o massacre da Escola Raul Brasil, em 2019, a cidade carregou uma das maiores tragédias de sua história sem que o poder público estruturasse políticas reais de reparação, cuidado ou prevenção. O trauma coletivo, não elaborado, tornou-se parte da paisagem social — e, como consequência, vemos crescer a violência, o medo e a sensação de abandono. Nos últimos anos, outro sintoma grave se instalou: a destruição da APA do Rio Tietê no Miguel Badra, fruto de operações de aterro e especulação que avançam sobre o território com a conivência do Estado. Quando uma cidade não protege suas crianças e também não protege seu rio, ela revela que algo fundamental se rompeu: o compromisso com o comum. O aumento recente dos homicídios no Alto Tietê — como mostram os dados d...