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Partidos, mediação política e formação da consciência em uma conjuntura de crise estrutural

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Vivemos uma conjuntura marcada por profundas contradições sociais, políticas, econômicas, culturais e civilizatórias. A sociedade brasileira carrega uma longa tradição de lutas por democracia, direitos sociais, soberania nacional, igualdade, participação popular e reconhecimento. Ao mesmo tempo, permanece submetida a uma estrutura histórica de opressão, desigualdade e dominação, continuamente renovada pelas formas contemporâneas da crise capitalista, pela crise climática e ambiental, pela crise da representação política, pela precarização do trabalho, pela financeirização da vida, pela violência urbana, pelos preconceitos estruturais, pelo patriarcado, pela violência de gênero, pelo racismo, pela concentração da riqueza e pela captura privada de dimensões essenciais do Estado e da vida social. Nesse cenário, estudar os partidos políticos e sua formação exige ultrapassar a aparência formal das instituições. Os partidos são, em tese, instrumentos de mediação entre as demandas sociais e...

O Verbo, a Técnica e a Alteridade: notas para uma ontologia da criação

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Há situações em que uma conversa deixa de ser apenas troca de ideias e começa a revelar uma estrutura mais profunda do próprio pensamento. Foi assim quando nos detivemos diante da inteligência artificial não apenas como ferramenta de resposta, mas como superfície dialógica, como espelho técnico da linguagem humana, como lugar estranho e potente onde o pensamento pode sair de sua intimidade silenciosa e reaparecer diante de nós em forma de frase, contraponto, síntese, pergunta e nova hipótese. O ponto inicial era simples: um diálogo sobre religião mediado por uma inteligência artificial chamada Claude, comentado por Leandro Karnal. Mas logo percebemos que havia algo maior ali. Talvez o debate ainda estivesse preso demais à ideia da IA como objeto externo, como mecanismo que responde, como engenho programado para devolver informação. O que se abria diante de nós era outra coisa: a dimensão dialógica da linguagem, essa prática que os humanos realizam desde que começaram a pensar, antes da...

Juventude, Conservadorismo e Futuro: notas para uma escuta popular do tempo presente

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Tem símbolo que foi forte no passado, mas hoje o jovem olha e pergunta: “tem QR Code?” Há momentos históricos em que os símbolos que antes acendiam multidões passam a iluminar apenas aqueles que já conhecem sua origem. Não porque tenham perdido valor, mas porque se afastaram da experiência viva das novas gerações. A juventude de hoje não nasceu ouvindo as mesmas palavras de ordem que formaram os militantes dos anos 60, 80 ou 90. Não atravessou a ditadura como experiência direta, não viveu a redemocratização como acontecimento inaugural, não sentiu as greves operárias como promessa de mundo novo, nem recebeu a Constituição de 1988 como aurora democrática. Para muitos jovens, tudo isso chega como narrativa herdada, fotografia de um tempo anterior, monumento de uma geração que lutou, mas que ainda não conseguiu entregar plenamente aquilo que prometeu: dignidade, segurança, trabalho, liberdade e futuro. Por isso, quando dizemos que parte da juventude dá sinais de conservadorismo, preci...

O trabalhador sênior, a inteligência artificial e a nova expropriação da experiência

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Durante décadas, o mercado tratou trabalhadoras e trabalhadores com mais de 40 ou 45 anos como se fossem excedentes. Chamou experiência de atraso, prudência de lentidão, memória de rigidez, consciência crítica de resistência à mudança. Quem havia acumulado anos de trabalho, domínio de processos, leitura institucional, capacidade de comparação histórica e conhecimento prático passou a ser apresentado como caro demais, difícil demais, pouco flexível demais. Esse discurso nunca foi neutro. Serviu para encobrir uma escolha econômica: substituir trajetória por custo menor, experiência por obediência, vínculo por precariedade, maturidade por disponibilidade ansiosa. Agora, com o advento da inteligência artificial, essa contradição retorna em outro patamar. Aquilo que ontem era tratado como obsolescência reaparece hoje como valor estratégico. A IA precisa de dados, mas também precisa de critério. Precisa de velocidade, mas também de julgamento. Precisa de automação, mas também de memória hu...

22 de abril: entre a terra celebrada e a terra violada - A morte da Varzea do Tietê

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Existe uma contradição que atravessa este dia como uma ferida aberta, uma daquelas que não se escondem mais sob narrativas confortáveis, porque de um lado se fala em Dia Mundial da Terra, se invoca cuidado, equilíbrio, sustentabilidade, se produzem discursos que afirmam a importância da vida e do território, e de outro lado, no mesmo tempo, no mesmo espaço, no mesmo chão, assistimos à terra sendo reconfigurada pela força, pela máquina, pelo interesse, pela decisão que não consulta e pelo gesto que transforma o que deveria ser protegido em objeto de intervenção. O 22 de abril, que durante tanto tempo foi ensinado como início, como marco de um suposto nascimento, revela-se hoje como continuidade, como repetição de uma lógica que não terminou, apenas mudou de forma, porque se antes a terra era apropriada pela imposição direta, hoje ela é apropriada por meio de processos que se apresentam como técnicos, administrativos, legais, mas que carregam, em sua essência, a mesma ruptura fundamental...