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Manifesto pela recomposição do humano

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Nós não estamos apenas diante de um tempo confuso. Estamos dentro de um tempo produzido — e isso precisa ser dito com clareza. O mundo que habitamos não é apenas o resultado de avanços técnicos ou descobertas científicas. Ele é o resultado de relações concretas, históricas, materiais, que organizaram o modo como produzimos, vivemos e pensamos. E é por isso que, quando dizemos que há uma crise, precisamos ir além da superfície. Porque não se trata apenas de uma crise econômica. Não se trata apenas de uma crise política. E, embora pareça, não se trata apenas de uma crise do conhecimento. O que vivemos é uma crise da forma social que organiza o conhecimento dentro de um sistema histórico específico . Avançamos, sim. E avançamos muito. Mas esse avanço não foi neutro. A capacidade de produzir ciência, tecnologia, comunicação e controle da natureza foi impulsionada por um sistema que precisa expandir permanentemente suas forças produtivas. E, nesse processo, o conhecimento foi elevado a u...

Raul Brasil permanece, viva e ferida. Memória e dor.

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Há datas que nascem duas vezes. 13 de março, para mim, sempre foi origem — o marco silencioso de ter chegado ao mundo, de ter sido lançado ao tempo, às possibilidades, às relações que constroem o que sou. Durante anos, essa data carregou a leveza discreta dos começos: um dia que, mesmo simples, afirmava a continuidade da vida. Mas em 2019, esse mesmo dia foi atravessado por outra inscrição. Na Escola Estadual Raul Brasil, algo se rompeu de forma brutal. A cidade de Suzano, que já habitava em mim como território de pertencimento, tornou-se também território de luto. Não era mais apenas o meu dia — era um dia marcado por ausências, por nomes interrompidos, por histórias que não puderam continuar. Desde então, 13 de março deixou de ser um ponto fixo. Tornou-se um campo de tensão.  Há, de um lado, a vida que insiste — o fato simples e profundo de estar aqui, de continuar, de atravessar os dias. Há, de outro, a memória que pesa — não como algo que escolho lembrar, mas como algo que se i...

O Processo do Custo e a Jornada 6 x 1

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Disseram-lhe que a economia estava doente. Ele perguntou onde doía. Responderam: no custo. Não houve exame clínico. Não houve ausculta. Não houve análise estrutural. Apenas um número foi apresentado, grave e solene, como se carregasse a própria essência do organismo social. O número era alto. Sempre é. Desta vez, porém, o número tinha origem identificável: a suspeita de que a jornada 6 x 1 pudesse ser alterada. Cinco dias de trabalho para dois de descanso já pareciam excessivos para alguns. Havia quem sugerisse redistribuir o tempo. Havia quem falasse em saúde, convivência, dignidade. O tribunal foi convocado. Ele tentou entender. — Mas a economia não é produção? Não é troca? Não é circulação de bens, tempo e energia humana? Olharam-no com paciência técnica. — A economia é custo. E reduzir a jornada aumenta o custo. A frase foi dita com a serenidade de quem descreve uma lei da gravidade. Ele recordou-se de ter lido que produtividade podia crescer. Que reorganizaçõ...

O mundo ainda tá aberto! 2026 como tempo de escolha.

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Entramos em 2026 sem garantias claras do que virá pela frente. Não há mapas seguros nem promessas tranquilizadoras. O mundo, que parecia caminhar para algum tipo de estabilidade mínima, voltou a se mover de forma errática. As coisas seguem acontecendo, às vezes rápido demais, outras de modo quase invisível, mas sempre exigindo de nós algum tipo de posicionamento. O que antes parecia absurdo passou a ser administrável. A crise deixou de ser exceção e virou parte do cotidiano. É tempo, portanto, de escolha. Não no sentido grandioso das palavras de ordem, mas na dimensão concreta da vida: como seguimos organizando o trabalho, o cuidado, a política, o aprendizado. As escolhas já não se apresentam como caminhos claros; aparecem como desvios possíveis em meio a um terreno instável. Escolher, hoje, é mais próximo de assumir riscos do que de seguir certezas. A tecnologia segue avançando, mas de forma desigual. Produz conforto para alguns, precariedade para muitos, dependência para quase todo...