Análise Epistemológica da Notícia – Aplicação do Método “Geometria dos Saberes”


I. O Objeto de Estudo: o discurso jornalístico travestido de neutralidade

A matéria — “Suzano é homenageada pelo Tribunal de Contas entre as 25 cidades paulistas com melhor gestão efetiva” — apresenta-se como fato informativo, mas carrega uma estrutura de linguagem que excede o campo da ciência da informação e se aproxima do campo da política simbólica.

À primeira leitura, parece um texto neutro. Porém, o modo de enunciação, o uso de fotografias e a ausência de questionamento configuram uma transferência simbólica de prestígio: do Tribunal de Contas (instituição técnica) ao governo municipal (agente político).
Trata-se, portanto, de uma operação epistemológica de confusão entre campos — onde a ciência e a política deixam de dialogar criticamente e passam a se fundir de modo ilegítimo.

II. O vértice predominante: a Política

Pelo método da Geometria dos Saberes, cada fenômeno pode ser analisado segundo o vértice que o domina.
Neste caso, o texto pertence ao vértice Política, mas com uma inflexão ideológica:
a propaganda institucional ocupa o lugar da ação pública, e a retórica da eficiência substitui o debate sobre a justiça e a finalidade da gestão.

O jornalismo, que deveria funcionar como instrumento filosófico e científico da verdade (mediando dados, verificando contextos, analisando causas), é deslocado para o campo da política e usado como instrumento de legitimação simbólica do poder.

Aqui ocorre o que o método chama de desequilíbrio epistemológico: o centro da figura – a consciência crítica – se apaga, e um dos vértices domina os demais.

III. Leitura dos campos do saber em desequilíbrio

Campo do Saber

Função original

Estado na notícia

Consequência epistemológica

Ciência (Informação)

Produzir dados verificáveis

Parcial – cita índices sem contexto ou metodologia

Redução do real à aparência numérica

Filosofia (Crítica)

Interrogar causas e fundamentos

Silenciada

Supressão da dúvida e do sentido público

Arte (Linguagem)

Revelar e sensibilizar

Instrumentalizada pela estética da propaganda

Emoção usada para reforçar poder, não reflexão

Política (Ação)

Organizar o comum

Dominante e autopromocional

Transformação do político em marketing

Religião (Símbolo)

Fornecer coesão simbólica

Subjacente – culto à autoridade e à “boa gestão”

Transcendência substituída por idolatria institucional

 

IV. Diagnóstico: a curvatura do saber

No diagrama da Geometria dos Saberes, o ponto de equilíbrio (centro) corresponde à consciência crítica — o lugar onde os campos se integram e se interrogam.
A notícia, porém, apresenta uma curvatura epistemológica negativa: o centro se desloca para o vértice político, e a figura torna-se um triângulo imperfeito entre Política, Arte e Ciência, excluindo Filosofia e Religião crítica (ética e sentido).

Essa deformação cria o que podemos chamar de campo de ilusão comunicacional, no qual:

  • o dado (Ciência) é esvaziado de crítica (Filosofia);
  • a forma (Arte) é usada para encantar, não para revelar;
  • e o poder (Política) se legitima por símbolos sem transcendência ética.

V. Interpretação Filosófica — o Esquecimento do Centro

A notícia é o retrato de um ato de esquecimento epistemológico.
Ela ignora o princípio de que todo conhecimento deve responder a cinco perguntas centrais:
o que é? de onde vem? como se valida? para que serve? e quem conhece?

  • O que é? — um comunicado político travestido de notícia.
  • De onde vem? — de fontes oficiais, não de investigação jornalística.
  • Como se valida? — pela autoridade, não pela verificação.
  • Para que serve? — para reforçar a imagem do poder local.
  • Quem conhece? — o público, mas em posição passiva, sem poder de crítica.

Logo, o texto falha nas cinco dimensões do conhecer: ele informa sem iluminar.

VI. Conclusão – Restauração do Equilíbrio

Aplicar a Geometria dos Saberes à notícia é como examinar o raio-x do discurso.
O que se vê é um sistema de comunicação desequilibrado, em que a razão técnica serve à emoção estética e ambas servem à política do prestígio.
A cura epistemológica exige recolocar os vértices em diálogo:

  • A Ciência deve fornecer dados auditáveis;
  • A Filosofia, o sentido do público e da verdade;
  • A Arte, a expressão simbólica livre;
  • A Política, o compromisso ético com o comum;
  • A Religião, o fundamento espiritual da dignidade humana.

Somente então o centro — a consciência crítica — pode voltar a brilhar.

“Toda cidade é o retrato do equilíbrio (ou desequilíbrio) entre seus saberes.
Quando o jornalismo perde o centro, a cidade perde o espelho.”

Imagem: Reprodução de matéria publicada no jornal Diário de Suzano, edição de 13 de outubro de 2025, página 3, seção Cidade.
Fonte: Diário de Suzano – reportagem local: “Suzano é homenageada pelo Tribunal de Contas entre 25 cidades paulistas com melhor gestão efetiva”.
Uso destinado a fins críticos, educativos e de análise de comunicação pública (art. 46, III, da Lei 9.610/98 – Limitações de direitos autorais).


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