Postagens

Os limites do tempo vivido: por que civilizações inteiras deixam de existir?

Imagem
A vida humana só é possível em comunidade em relação com a natureza e com o outro. Vivemos um tempo-limite. Um tempo em que a espessura que dá substância a história se comprime em bytes, e a existência humana tem a oportunidade de se equilibrar entre telescópios que decifram galáxias e algoritmos que decidem o preço do pão. Nesse tempo, perguntamo-nos: por que tantas civilizações morreram? O que permanece? E o que em nós nos sabota, impedindo uma evolução que dure mais do que um suspiro no tempo profundo? Esta série de sonetos nasce como tentativa poética de uma vivência teimosa de atravessar essa pergunta. Em vez de propor respostas definitivas, os versos tentam habitar a dúvida, convocar o espanto e escutar o sussurro do que insiste em viver. A poesia aqui é porto e passagem. Caminho que acolhe a reflexão antes do manifesto, a escuta antes da teoria, o grito antes da marcha. Que esta leitura seja um rito de reencontro com aquilo que pode, enfim, reencantar o mundo.   ...

Nosso Cotidiano: entre trens lotados, corpos exaustos e a esperança que resiste

Imagem
Um jovem acorda cedo na periferia. Ainda está escuro. Toma um café rápido, após um banho com a água que chega em sua casa pelos canos instalados com dinheiro público — obra coletiva agora praticamente doada, via concessão, ao acúmulo de alguns milionários. Sai de casa em direção à estação. Vai trabalhar. Mais tarde ainda tentará chegar à faculdade. No caminho, encontra pessoas dormindo nas calçadas, crianças pedindo nos faróis, viaturas abordando com brutalidade outros jovens como ele — corpos racializados, periféricos, cansados. O trem vem lotado. A esperança tenta se equilibrar entre os empurrões e o sono acumulado. Este lugar não é Londres no século XIX. É Suzano , Mogi das Cruzes , Itaquaquecetuba , Ferraz de Vasconcelos . É o Alto Tietê. É o Brasil real. A crítica como herança e método Mas não é só no trem lotado ou na fila do ônibus que a desigualdade se revela. Em cada farol das grandes avenidas, ela estampa os rostos de crianças que carregam balas, panos, flores e esper...

Inversão de Prioridades Ontem e Hoje: Lições do Governo Popular de Suzano (2005–2012) e os Desafios da Reconstrução

Imagem
Revisitar o passado pode ser um gesto profundamente político. Hoje, ao reler o texto publicado em maio de 2011 no Blog Plebeu , que narrava a transformação vivida pelo povo do Ramal São José, em Suzano-SP, volto a me encontrar com uma experiência histórica concreta que ajudei a construir como Secretário de Participação Popular no governo Marcelo Candido (2005–2012). Aquela reflexão, escrita no calor dos acontecimentos, relatava não só a reurbanização de um bairro, mas o início de um novo tempo na cidade: um tempo de dignidade, de inclusão e de justiça social. O governo que integrávamos foi orientado por cinco eixos estratégicos: combate à corrupção, inclusão social, desenvolvimento sustentável, cidade legal e participação popular . Não eram apenas palavras de ordem, mas guias de ação concreta. Com elas, estruturamos políticas públicas que mudaram a realidade de dezenas de milhares de pessoas. A regularização fundiária em mais de 82 áreas, os planos municipais de saneamento e mobilid...

Transporte público e justiça territorial: o que São Paulo decide reverbera no Alto Tietê

Imagem
A fala do vereador paulistano e urbanista Nabil Bonduki escancara a crise do planejamento metropolitano e os impactos da privatização nas periferias da Grande São Paulo. A mobilidade urbana na Região Metropolitana de São Paulo enfrenta um grave processo de desorganização, refletido especialmente nas cidades do Alto Tietê, como Suzano, Mogi das Cruzes e Ferraz de Vasconcelos. A ausência de um planejamento metropolitano integrado, aliado à fragmentação das políticas públicas e à crescente privatização do transporte coletivo, tem comprometido o direito de ir e vir de milhares de trabalhadores e trabalhadoras. O urbanista e vereador de São Paulo , Nabil Bonduki, tem sido uma das vozes mais lúcidas e consequentes nesse debate. Em entrevista ao Brasil de Fato , ele alertou: “A Prefeitura de São Paulo está se desfazendo dos seus quadros técnicos e entregando a gestão para o setor privado.” Essa crítica ganha ainda mais peso quando lembramos que as decisões tomadas na metrópole paulistan...

Reconhecer antes de convocar: reflexão sobre escuta, confiança e organização popular em tempos de dispersão

Imagem
Companheira, companheiro, camarada: Escrevemos esta carta em tempos de disputa dura sobre o presente e o futuro do nosso país. Temos consciência de que o projeto que estamos construindo nasce no marco da luta por um Estado democrático de direito — aquele que garanta direitos, respeite a dignidade de todas as pessoas e seja instrumento da soberania popular. Mas não podemos fechar os olhos para o que está em curso. Em São Paulo, o governo Tarcísio promove a privatização do que é público , o sucateamento das políticas sociais e o afastamento das decisões das mãos do povo . No campo econômico, vozes como a de Armínio Fraga — ao defender o congelamento do salário mínimo por seis anos — revelam a profundidade da lógica excludente e antipovo que ainda governa muitas esferas do Estado e da economia. Essa combinação entre Estado ausente , elite econômica predadora e política desumanizante tem dispersado nossa base social, desmobilizado lideranças, e ferido comunidades inteiras....

Cem Dias de Governo em Suzano: o verde que comunica e a cidadania que mobiliza… até onde?

Imagem
Por Instituto Ideias no Lugar – Abril de 2025 Nos primeiros 100 dias da gestão Pedro Ishi, duas iniciativas da Prefeitura de Suzano chamaram atenção: o Plano de Arborização Urbana e o Projeto SER – Eixo Mulher . Ambas foram celebradas como marcos simbólicos do início de governo. Mas, ao olharmos com atenção, o que essas ações realmente revelam sobre a direção política que está sendo construída? Arborização que educa... mas transforma? O Plano de Arborização mira o plantio de 1.500 mudas até o fim do ano. Projetos como “Replantar” e “Árvore FamiliAR” convidam famílias a se engajarem no plantio coletivo, oferecendo experiências educativas e reforçando o pertencimento à cidade. Iniciativas como essas são bem-vindas. Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada: qual é o impacto real desse plano na política ambiental da cidade? A ação não informa: Qual o índice de sobrevivência das mudas? Como os plantios dialogam com o plano diretor urbano e o enfrentamento da...

A dor de incluir: o que revela o Dia Nacional da Educação Inclusiva

Imagem
Lembro da primeira vez em que vi um estudante com deficiência sendo deixado de lado durante a aula. Estávamos todos ali, no mesmo espaço, mas não na mesma experiência. Enquanto seguíamos os exercícios, ele era deixado sob a guarda de uma monitora, isolado — como se sua presença fosse um gesto de caridade, não um direito. Foi ali que me caiu a ficha: aquela escola não era, de fato, para todos. Era para quem se encaixava. Para quem aprendia “no tempo certo”, para quem conseguia acompanhar a norma, para quem não “atrapalhava”. Hoje, ao lembrar disso no 14 de abril, o chamado Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva , não consigo sentir comemoração. Sinto incômodo. Sinto denúncia. Porque, se precisamos de uma data como essa, é porque o sistema educacional falhou — e segue falhando — em garantir o mais básico: o direito de aprender com dignidade. A expressão “educação inclusiva” já nasce marcada por uma contradição. Se a educação fosse de fato o que promete ser — instrumento de em...