Não à Republica da Suruba
Novo Trabalho de Base: identidade política, democracia e compromisso com a vida.
Posicionamento diante do segundo turno presidencial de 25 de outubro de 2026.
O Novo Trabalho de Base — NTB — parte de um compromisso: criar condições para que as pessoas reconheçam sua própria capacidade, construam vínculos e participem como protagonistas das decisões sobre sua vida e sua sociedade.
Esse compromisso exige identidade política. Precisamos explicitar quais interesses defendemos, quais transformações buscamos e como nossas próprias práticas permitem participação, discordância e decisão coletiva. Nossa identidade se constrói na relação entre esses princípios e as escolhas concretas que fazemos.
A eleição presidencial é uma dessas escolhas. Seu resultado pode alterar as condições de exercício dos direitos, funcionamento das instituições e organização popular. Por isso, o NTB considera necessário assumir uma posição fundamentada, preservando sua autonomia e seu compromisso com a verdade.
Nossa escolha eleitoral e nossa autonomia
O NTB defende o voto em Lula neste segundo turno.
Essa posição considera as diferenças entre os projetos em disputa e suas consequências para a democracia, os serviços públicos, os direitos e a participação popular.
Temos críticas profundas ao modelo de conciliação, aos acordos que restringem mudanças necessárias e ao risco de afastamento entre governo e organização popular. Reconhecemos que o federalismo, a composição do Congresso e as correlações de força impõem limites reais à ação governamental.
Esses limites precisam ser examinados concretamente. A correlação de forças ajuda a explicar compromissos, mas também pode ser transformada pela organização social. Cada acordo deve ser avaliado por seus efeitos sobre a vida da população, seus direitos e sua capacidade de decidir.
Nosso apoio eleitoral preserva a liberdade de cobrar, reivindicar, discordar e organizar. Um governo que apoiamos também deve prestar contas.
Por que uma retomada bolsonarista nos preocupa
A experiência do governo Jair Bolsonaro oferece razões concretas de preocupação. Em 2019, Trabalho e Cultura perderam o status de ministérios, com redistribuição de suas competências. Houve bloqueios de recursos das universidades federais e conflitos com essas instituições. Órgãos de proteção ambiental e indigenista foram objeto de denúncias e avaliações sobre enfraquecimento de capacidades e mudanças de orientação. Esses processos possuem particularidades e antecedentes que precisam ser respeitados na análise. (MP 870/2019, MEC, TCU, relatório Inesc e INA)
Para o NTB, essas instituições integram as condições concretas de organização: formação, produção de conhecimento, expressão cultural, proteção territorial e defesa de direitos. Seu enfraquecimento pode ampliar vulnerabilidades e obrigar comunidades a concentrar suas energias na defesa de condições elementares de existência.
A candidatura de Flávio apresenta continuidade política com o bolsonarismo. Isso não permite prever a repetição de todas as medidas anteriores, mas justifica avaliar seriamente os riscos desse projeto.
Deus, pátria e família: valores que exigem coerência
Respeitamos a fé, os vínculos familiares e o pertencimento ao Brasil. Esses valores têm significados diversos na experiência popular e não pertencem exclusivamente a uma candidatura.
O problema surge quando uma força política reivindica seu monopólio: apresenta sua liderança como representante de Deus, seus adversários como inimigos da pátria e apenas determinadas famílias como legítimas. Assim, a divergência pode ser convertida em ameaça moral.
Defender as famílias exige proteger saúde, alimentação, moradia, trabalho e segurança. Defender a pátria exige preservar a soberania. Invocar Deus não dispensa ninguém de prestar contas.
A atuação de Eduardo Bolsonaro em favor de sanções externas contra autoridades brasileiras merece crítica por buscar pressão estrangeira sobre conflitos internos do país. Esse comportamento deve ser confrontado com o discurso de defesa da soberania. (AP)
Comparações históricas com experiências autoritárias podem ajudar a examinar culto à liderança, construção de inimigos e legitimação da violência. Devem demonstrar mecanismos concretos, respeitando diferenças históricas.
Banco Master, Vorcaro e transparência
As relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, exigem explicações públicas. Documentos da investigação relatados pela imprensa apontam interlocução direta para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, incluindo cobranças de pagamentos. (Folha de S.Paulo)
Reportagem do Intercept de 23 de outubro, baseada em despacho da Polícia Federal, apresentou elementos sobre transferências por empresas intermediárias e possíveis conexões entre recursos destinados ao filme e o circuito de fraudes investigado no caso Master. Flávio nega irregularidades. A origem integral dos recursos e as responsabilidades individuais continuam exigindo apuração. (Intercept Brasil)
A questão política é compreender quais interesses sustentam esse financiamento, quais compromissos foram assumidos e como se impede sua interferência no exercício do poder público.
Em 22 de outubro, foi noticiada a apresentação ao TSE de acordo autorizando a abertura dos sigilos dos dois candidatos. A autorização precisa ser distinguida da efetiva disponibilização e análise dos dados. Também seria incorreto tratar a preservação de sigilo, isoladamente, como prova de crime, porém ajudam a definir quem tem coragem e lealdade. (Agência Brasil)
Dignidade das mulheres e responsabilidade pública
Denúncias sobre festas de Vorcaro acrescentam uma dimensão grave ao debate. Segundo reportagem de 23 de outubro, a PF pediu ao STF investigação sobre suspeitas de tráfico de mulheres para exploração sexual e favorecimento da prostituição. A defesa do banqueiro nega exploração sexual. (UOL, BBC/O Povo)
Nossa preocupação se concentra em possíveis abusos, exploração e utilização de benefícios privados para obter influência. A presença em eventos ou a proximidade com o banqueiro não comprovam participação nos crimes investigados mas define carácter.
Mulheres são sujeitos de direitos. Possíveis vítimas precisam de proteção; nenhuma deve ser exposta ou humilhada para atingir adversários. A crítica deve preservar a distinção entre relações consentidas entre adultos e exploração.
Também não apresentamos candidatura, Master, bets e denúncias sexuais como uma única organização criminosa. Cada vínculo exige demonstração específica, sob pena de sermos confundidos com uma "República da Suruba".
Quem reivindica autoridade moral deve aceitar o exame de suas relações. A defesa da família exige coerência diante de possíveis abusos envolvendo aliados, financiadores e pessoas próximas.
O NTB depois das urnas
Uma adesão expressiva ao bolsonarismo faz parte da realidade com a qual precisamos dialogar. Votos semelhantes podem reunir motivações diferentes; a escolha eleitoral não revela, sozinha, toda a visão de mundo de uma pessoa.
Nosso trabalho exige compreender experiências, necessidades, medos e expectativas, enfrentando práticas de intolerância sem reduzir pessoas a rótulos. Nenhuma adesão deve ser presumida como irreversível.
Uma vitória eleitoral, por si, não produz consciência política, vínculos ou organização. O NTB continuará construindo espaços em que a população possa formular demandas, acessar informações, discordar, decidir, executar e avaliar suas ações.
Nossa escolha por Lula integra esse compromisso. Nossa autonomia permitirá sustentá-lo depois da eleição: defendendo direitos, cobrando responsabilidades e ampliando o poder de decisão da população.

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