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O Grito que Permanece

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Todo ano, a cidade se veste de festa. O Divino Espírito Santo desce do céu para caminhar com o povo, entre fitas, bandeiras, tambores e promessas. Os palmitos entram em cortejo. Não apenas folhas, mas símbolos. Entram os lavradores com seus chapéus gastos pelo sol e a força da terra nas mãos. É a ancestralidade dos corpos, a fé encarnada na cultura, a inculturação da esperança. Mas há um traço que permanece, mesmo quando as bandeiras são recolhidas. Um traço que não se dissolve nas águas da procissão. Está lá, na parede da catedral. Uma pichação! Uma escrita anônima, rude, talvez marginal — mas viva. Não foi feita no dia seguinte a um episódio específico. Não foi um protesto direto. É mais profunda. É uma marca que fica. Dizem que houve um tempo — ou muitos — em que o templo fechou suas portas aos corpos cansados. Que em plena Festa do Divino, quando os fiéis buscaram abrigo, banheiro, dignidade, encontraram não acolhimento, mas recusa. O sagrado não abriu a porta para...

Nota Pública: Quando o Editorial se Cala, o Território Grita

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Uma denúncia sobre o silêncio do Mogi News diante da destruição da APA do Rio Tietê. No dia 5 de junho de 2025, Dia Mundial do Meio Ambiente, o jornal Mogi News publicou um editorial genérico e inofensivo celebrando o chamado “Junho Verde”. Falou-se de bons hábitos, de reciclagem, de ações do poder público e da importância de preservar “o que ainda resta” de natureza. Mas o que não foi dito grita mais alto do que todo o texto: o silêncio sobre os problemas concretos que impactam diretamente o meio ambiente na região , como a especulação imobiliária, a ausência de políticas públicas urbanas e a destruição de áreas protegidas como a APA da Várzea do Rio Tietê. Não se trata apenas de esperar mais de um editorial — trata-se de apontar que ao ocultar os conflitos reais, o jornal reitera uma narrativa de sustentabilidade abstrata , que pouco serve à população e muito favorece os que lucram com o desmonte do território. Desde 2023, tramita junto ao Ministério Público Federal uma representa...

Maio das Trabalhadoras: O Mês Termina, Mas a Luta Recomeça

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Maio chega ao fim. Mas o que ele plantou em nós continua florescendo. É o mês em que o povo trabalhador do mundo inteiro levanta a cabeça e lembra: não nascemos para obedecer em silêncio, mas para transformar a vida com as próprias mãos — e com o próprio tempo. Desde as greves de Chicago em 1886 até as mobilizações de hoje, uma bandeira segue tremulando: trabalhar para viver, e não viver para trabalhar. E é com esse sopro de memória e esperança que encerramos maio — com o coração apontando para o que virá. A luta contra o regime 6x1 — essa engrenagem perversa de seis dias de trabalho para um de descanso — entra agora numa nova fase : a construção de um plebiscito nacional, popular, participativo. Vamos consultar o povo. Vamos escutar os trabalhadores. Vamos fazer a pergunta que muitos não ousam fazer: você concorda com uma jornada que rouba seu tempo de viver? A vida não pode caber só no trabalho O regime 6x1 se espalhou como praga em nome da eficiência. Mas quem o vive sabe...

Da alienação à produção: a tecnologia como ferramenta de emancipação popular

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Em meio ao emaranhado de fios invisíveis que nos conectam, pulsa uma oportunidade histórica: transformar a relação que temos com a tecnologia. O celular que carregamos no bolso é, na essência, um computador. Um capital concentrado e, ao mesmo tempo, pulverizado, acessível a quase todas e todos. Porém, este acesso, que poderia ser libertador, muitas vezes nos aprisiona em um papel de meros consumidores: clicamos, compartilhamos, consumimos... mas não compreendemos. Não produzimos. Da mesma forma que os medicamentos industrializados nos afastam dos saberes tradicionais sobre o uso das plantas, a tecnologia moderna tende a ser apresentada como uma caixa preta , inacessível e intocável. Mas há caminhos para romper esse cerco. Assim como é possível substituir o omeprazol pela espinheira-santa , ou a dipirona pelo mil-folhas , podemos substituir a visão fetichizada do hardware — como um aparato inalcançável — por uma compreensão aberta: saber que um processador , uma memória , um ci...

Consciência de Classe no Século XXI: Entre a Fábrica, o Algoritmo e o Sonho

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No início do século XX, entre guerras e revoluções, o filósofo húngaro György Lukács escrevia sobre um tema que ainda hoje nos inspira e questiona: a consciência de classe. Ele via, com os olhos da história, que sofrer não basta. É preciso compreender o porquê do sofrimento, quem lucra com ele e, mais ainda, como organizá-lo como força transformadora. Lukács diferenciava duas realidades: a classe em si e a classe para si . A primeira é objetiva — todos os que vendem sua força de trabalho, ainda que não se reconheçam como parte de um todo. Já a classe para si nasce quando essas pessoas passam a se enxergar como parte de um mesmo processo de exploração e, por isso, decidem lutar juntas. A consciência de classe é, então, mais do que uma noção moral ou uma ideia sociológica: é uma forma de despertar coletivo . Mas entre Lukács e nós há um século de abalos. No tempo dele, a luta era feita no chão da fábrica, no sindicato, na greve, na construção de partidos. A industrialização avança...

Como a linguagem, a filosofia e a luta nos trouxeram até a Inteligência Artificial

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Hoje, muita gente se pergunta como funciona o ChatGPT, de onde vem essa “inteligência” que responde perguntas, escreve textos, debate com estilo e até simula emoção. Mas poucas se perguntam: o que aconteceu na história do pensamento humano para que uma máquina pudesse operar com linguagem? A inteligência artificial que hoje nos fascina — ou ameaça — não nasceu de um truque técnico. Ela é o fruto de uma longa caminhada de perguntas, contradições e disputas sobre o que significa falar, compreender, ensinar, traduzir, nomear. Este texto é um convite para voltar algumas casas no tabuleiro da história — e entender como chegamos até aqui. Quando tudo era palavra Lá na Grécia Antiga, muito antes de haver eletricidade, Platão já se perguntava se as palavras capturavam a verdade das coisas. Para ele, os nomes eram sombras das ideias eternas. Aristóteles, por sua vez, foi mais prático: organizou a lógica com sujeito, predicado, categorias. Ele não sabia, mas estava plantando a semente ...

NOTA PÚBLICA: EM DEFESA DA HISTÓRIA VIVA DA LUTA ANTIRRACISTA EM SUZANO

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A chamada “1ª Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Suzano”, convocada para o dia 17 de maio de 2025 sob o tema “Igualdade e Democracia: Reparação e Justiça Racial”, carrega em seu título uma grave tentativa de apagamento histórico das lutas travadas pelo movimento negro organizado no município nas últimas décadas. Entre os anos de 2005 e 2012, Suzano esteve na vanguarda da promoção da igualdade racial, sendo uma das primeiras cidades do Alto Tietê a realizar conferências municipais em sintonia com o Governo Federal, com ampla participação dos movimentos negros, culturais e sociais. Desses encontros nasceram propostas e delegados que atuaram diretamente nas esferas estadual e nacional, contribuindo para a formulação da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR). Suzano também foi pioneira na região ao oficializar o dia 20 de novembro como feriado municipal, reconhecendo o Dia da Consciência Negra como data de resistência, memória e reparação. Esses...