Saúde em Suzano: mais de R$ 416 milhões exigem transparência, fiscalização e resultados
A saúde de Suzano por dentro
Mais
de R$ 416 milhões exigem transparência, fiscalização e resultados
A saúde
pública não existe apenas nos prédios inaugurados, nos anúncios da Prefeitura
ou nos valores inscritos no orçamento. Ela se realiza — ou deixa de se realizar
— na vida concreta das pessoas.
Está no
tempo de espera por uma consulta, na disponibilidade dos medicamentos, na
presença de equipes completas nas unidades, na rapidez do SAMU, no acolhimento
em saúde mental e na continuidade do tratamento.
Em 2026,
a Lei Orçamentária Anual de Suzano fixou o orçamento municipal em R$
1.680.502.521,85. Desse total, R$ 408.818.659,20 foram destinados à
Secretaria Municipal de Saúde. Considerando toda a despesa classificada na
função Saúde, inclusive R$ 7.417.500,00 registrados em outro órgão municipal, o
valor chega a R$ 416.236.159,20 — aproximadamente 24,8% de todo o
orçamento da cidade.
Em 2025,
a dotação inicial da Secretaria de Saúde havia sido de R$ 390.112.276,58.
Entre as duas leis orçamentárias, houve aumento nominal de aproximadamente R$
18,7 milhões, equivalente a 4,8%.
São
valores expressivos. Mas orçamento autorizado não é a mesma coisa que dinheiro
efetivamente gasto — e dinheiro gasto não é automaticamente sinônimo de direito
garantido. Para avaliar a política pública, precisamos saber quanto foi
empenhado, liquidado e pago; quem recebeu os recursos; quais metas foram
estabelecidas; e quais resultados chegaram à população.
É com
esse propósito que o Instituto Ideias no Lugar — IIL vem reunindo documentos,
encaminhando pedidos de informação e acompanhando a gestão municipal da saúde.
O que
está sendo investigado
Em
agosto de 2025, o IIL encaminhou quatro pedidos de informação à Prefeitura e a
outras instâncias públicas. As solicitações procuravam conhecer:
- os contratos e repasses ao
Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde — INTS;
- as empresas eventualmente
subcontratadas;
- as metas, os indicadores e
os relatórios de execução;
- o abastecimento de
medicamentos;
- o funcionamento da Santa
Casa;
- a relação do Município com o
Hospital Regional do Alto Tietê.
Diante
da ausência de respostas no prazo, os pedidos foram reiterados em setembro. O
acervo do Instituto contém os ofícios, os protocolos e as reiterações, mas as
respectivas respostas ainda não foram localizadas.
Essa
ausência precisa ser definitivamente confirmada. Se a Prefeitura respondeu,
deverá apresentar as respostas e comprovar seu encaminhamento. Caso não tenha
respondido, precisará explicar a omissão e identificar os setores responsáveis.
O que
o Tribunal de Contas encontrou
A
preocupação se torna mais grave diante das decisões do Tribunal de Contas do
Estado de São Paulo sobre o Contrato de Gestão nº 014/2020, celebrado entre a
Prefeitura e o INTS.
O
contrato alcançou áreas essenciais, como atenção básica, assistência
farmacêutica e SAMU. O TCE-SP julgou irregular o instrumento examinado e
apontou, entre outros problemas:
- critérios insuficientemente
objetivos para medir qualidade e produtividade;
- fragilidade na avaliação de
eficiência, eficácia e economicidade;
- despesas administrativas sem
discriminação adequada;
- falta de metodologia clara
para rateios e custos compartilhados;
- justificativas e memórias de
cálculo insuficientes nos aditivos;
- contratação irregular,
segundo o Tribunal, de agentes comunitários de saúde pela organização
social.
Essas
conclusões não significam automaticamente que os serviços deixaram de ser
realizados ou que houve desvio de recursos. Afirmações dessa natureza exigem
provas específicas.
Demonstram,
contudo, que os instrumentos examinados não permitiam comprovar adequadamente
justamente a eficiência, a qualidade e a economicidade utilizadas para
justificar a terceirização.
Diante
de um orçamento superior a R$ 416 milhões, a sociedade precisa saber
quanto é executado diretamente pelo Município, quanto é transferido às
organizações privadas, quanto custa cada serviço e quais resultados são
efetivamente alcançados.
A
matriz da saúde de Suzano
Nossa
investigação está organizada em cinco dimensões:
|
Dimensão |
O
que já sabemos |
O
que precisamos conhecer |
|
Planejamento |
A
saúde dispõe de mais de R$ 416 milhões na LOA de 2026 |
Metas,
prioridades territoriais e resultados previstos |
|
Orçamento |
A
Secretaria recebeu R$ 408,8 milhões; a função Saúde soma R$ 416,2 milhões |
Valores
atualizados, empenhados, liquidados e pagos |
|
Contratos |
O
TCE-SP reconheceu falhas estruturais no contrato analisado |
Repasses,
custos, prestações de contas e providências corretivas |
|
Serviços |
Existem
reclamações e questionamentos sobre a rede |
Filas,
medicamentos, equipes, tempos de espera e demanda reprimida |
|
Transparência |
Os
pedidos e as reiterações do IIL estão documentados |
Respostas,
tramitação, justificativas e agentes responsáveis |
A matriz
expressa um princípio: fato deve ser apresentado como fato; indício, como
indício; hipótese, como hipótese. Mas a falta de transparência do próprio
governo não pode impedir a investigação.
O
silêncio administrativo tem consequências
A transparência não é uma cortesia do governante. É uma obrigação legal. Pela Lei de Acesso à Informação, quando o acesso imediato não for possível, o poder público deve responder ao pedido em até 20 dias. O prazo pode ser prorrogado por mais dez dias, desde que exista justificativa expressa e comunicação ao requerente.
A LAI considera ilícitas condutas como recusar informação, retardar deliberadamente seu fornecimento, apresentar intencionalmente dados incorretos ou incompletos e agir com dolo ou má-fé na análise do pedido. No caso dos prefeitos, o Decreto-Lei nº 201/1967 também prevê crimes de responsabilidade relacionados à negativa de execução da lei e à omissão no fornecimento de certidões de atos ou contratos municipais dentro do prazo legal.
Não é possível afirmar antecipadamente que determinado agente cometeu crime. É necessário comprovar a omissão, identificar sua autoria e verificar as circunstâncias e a intenção envolvidas. Entretanto, se a falta injustificada de resposta for confirmada, os fatos poderão justificar a apuração de responsabilidades administrativas e, conforme o enquadramento jurídico, de eventual crime de responsabilidade.
Prudência
não significa silêncio. Significa investigar com firmeza, sem substituir a
prova pela acusação.
Muito
dinheiro exige resultados demonstráveis
O tamanho do orçamento torna a fiscalização ainda mais necessária. Não basta anunciar que Suzano destinou mais de R$ 416 milhões à saúde em 2026. É necessário demonstrar:
- quanto foi efetivamente
gasto;
- quanto foi destinado à
execução terceirizada;
- quais serviços foram
contratados;
- quais metas foram cumpridas;
- quanto custa cada
atendimento;
- como estão as filas e os
estoques de medicamentos;
- se as equipes estão
completas;
- se o atendimento resolveu o
problema da população.
Uma
política pública não pode ser avaliada apenas pelo dinheiro movimentado ou pela
quantidade de procedimentos registrados. Precisa ser medida pela capacidade de
garantir acesso, continuidade e solução.
A
saúde pertence ao povo
Suzano
já construiu políticas estruturantes, como o SAMU, os Centros de Atenção
Psicossocial, o Centro de Especialidades Odontológicas, a política municipal de
DST/AIDS, a Estratégia Saúde da Família e a assistência farmacêutica.
Essa
história deve servir como medida crítica do presente. Precisamos saber o que
foi preservado, ampliado, descaracterizado ou entregue a modelos menos
transparentes e mais frágeis do ponto de vista do controle público.
Perguntar
não é perseguir. Fiscalizar não é torcer contra. Exigir eficiência é defender o
SUS.
Quando
uma cidade reserva mais de R$ 416 milhões para a saúde, a população tem
o direito de conhecer cada etapa do caminho:
planejamento
→ orçamento → contratação → execução → fiscalização → resultados.
Este é o
propósito da série A saúde de Suzano por dentro: transformar documentos
públicos, experiências da população e decisões dos órgãos de controle em
conhecimento acessível e ação democrática.
Porque o
direito de saber também faz parte do direito à saúde.
Os
números orçamentários constam das leis oficiais de Suzano: LOA
de 2026 — Lei nº 5.728/2025 e LOA
de 2025 — Lei nº 5.605/2024.

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