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Leão XIV: a escolha de um nome, o sinal de um tempo

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Neste oito de maio de 2025 o mundo assistiu à eleição do novo pontífice da Igreja Católica. E não foi uma escolha qualquer: o novo Papa adotou o nome Leão XIV, gesto carregado de simbolismo histórico e de oportunas e preciosas repercussões políticas e espirituais para o futuro da Igreja e do mundo. Em seu primeiro discurso, Leão XIV falou com serenidade e firmeza: saudou os povos com a paz de Cristo, agradeceu a Francisco, reafirmou o espírito sinodal e se declarou discípulo de Santo Agostinho; falou de pontes, diálogo, proximidade, caridade e missão. O tom é de continuidade. Mas o nome escolhido aponta para algo mais, uma inflexão histórica que merece atenção, uma convocação: Leão XIV e a memória da Rerum Novarum. Ao escolher esse nome, o novo papa se alinha diretamente à figura de Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum (1891), que inaugurou a Doutrina Social da Igreja. Aquela carta apostólica foi um divisor de águas: denunciou os abusos do capitalismo industrial, defendeu o dir...

Leão XIV: entre a continuidade sinodal e o retorno ao confronto com as estruturas

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A escolha do nome Leão XIV, em vez de João XXIV, é um gesto carregado de significado político e teológico. João XXIII, ao convocar o Concílio Vaticano II, tornou-se símbolo da abertura, da pastoralidade e da renovação eclesial. Escolher “João XXIV” seria uma sinalização de continuidade explícita com as reformas conciliares. No entanto, Leão XIV aponta para outra dimensão: a do enfrentamento histórico com as “coisas novas” do mundo moderno, como fez Leão XIII em 1891 com a encíclica Rerum Novarum . O novo papa não nega a linha pastoral de Francisco — pelo contrário, reafirma a centralidade de uma Igreja sinodal, missionária e próxima dos que sofrem. Mas ao escolher Leão XIV, indica um desejo de intervir nas bases morais e sociais da organização global, como fez a Doutrina Social da Igreja no final do século XIX ao confrontar o capitalismo liberal selvagem e o socialismo autoritário. A Rerum Novarum não foi apenas um documento pastoral; foi uma intervenção nas estruturas. Ao proclamar o...

Justiça e reexistência: uma carta aberta ao Santíssimo Papa Leão XIV

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No dia de hoje, fostes eleito sucessor de Pedro. A vossa chegada ao trono pontifício ocorre num tempo em que os gritos da Terra e dos pobres já não podem mais ser abafados com incenso. Em vossa mão repousa a cruz dos crucificados da história — os trabalhadores precarizados, os povos indígenas dizimados, as mulheres silenciadas, os corpos racializados, a juventude órfã de futuro. Diante de vós, o desafio não é apenas guiar a barca da Igreja, mas ouvir o clamor dos que sequer foram admitidos na margem da história oficial. Viemos, por esta carta, vos saudar com esperança e inquietação. O espírito da Rerum Novarum: o que nos ensinastes Em 1891, vosso predecessor Leão XIII teve a coragem de dar nome ao escândalo da exploração. A Rerum Novarum foi um sopro profético numa era em que o trabalho era tratado como mercadoria e o pobre como resíduo. Com ela, aprendemos que a justiça social não é adorno doutrinário, mas exigência evangélica. Que o salário deve ser justo. Que o trabalhador nã...

A Escola Não É Quartel: sobre a decisão do STF e a luta viva por uma educação libertadora

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Há poucos dias, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, decidiu suspender o julgamento sobre a imposição do modelo cívico-militar em escolas públicas estaduais de São Paulo. A decisão — tomada no dia 2 e publicada no dia 5 de maio — ainda pode ser revisada. Mas seu gesto é simbólico e estratégico: um freio necessário no avanço silencioso de uma política autoritária que vem se enraizando sem diálogo, sem base científica e sem escuta da comunidade escolar. Não se trata apenas de uma medida jurídica. Trata-se de uma brecha aberta na conjuntura. Uma microbatalha vencida dentro de uma guerra longa. Uma pausa para respirar. Para reorganizar nossas forças. Para lembrar que a escola pública — essa instituição de tantas dores e esperanças — ainda pode ser defendida, reimaginada e libertada. Não há ingenuidade aqui. Sabemos que novas decisões podem surgir a qualquer momento, revertendo essa suspensão. Mas sabemos também que a história não se move apenas pelos grandes veredictos...

A tentativa de silenciar por falsificação

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  “Ela só leu o que estava ali” – A palavra, o corte e a verdade Na sessão do dia 30 de maio de 2025, na Câmara Municipal de Mogi das Cruzes, a vereadora Inês Paz ocupava o lugar de secretária da mesa diretora. Como prevê o regimento, sua função naquele momento era a de ler as proposituras que seriam apreciadas pela casa legislativa, incluindo moções, indicações e requerimentos de diversos parlamentares. Entre essas proposituras, havia uma moção de apoio à implantação de escolas cívico-militares, apresentada por outro vereador. Inês, como secretária, fez a leitura do texto — como é sua obrigação institucional. Mas depois, nas redes sociais, a fala de Inês foi recortada, retirada de contexto e usada como se fosse uma declaração pessoal de apoio à moção. O vídeo, editado de forma maliciosa, sugere que a vereadora defende algo que sempre combateu com firmeza: a militarização da educação. A tentativa de silenciar por falsificação Esse tipo de corte não é ingênuo. É uma estr...

A costura da ilusão: o uniforme como remendo de má gestão

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“Governar não é distribuir pano. É tecer dignidade com o fio do povo.” — Ppplebeu, linha torta da história. Em Mogi das Cruzes, a prefeita subiu ao palco e anunciou, com a leveza de quem distribui bênçãos, que os uniformes escolares chegarão até o final do ano . A plateia aplaudiu. A imprensa registrou. A política seguiu seu teatro. Mas aqui no ppplebeu , a gente não aplaude antes de fazer a costura crítica. Uniforme no fim do ano não é política pública. É disfarce. É remendo. O uniforme escolar deveria ser um símbolo de dignidade para o início do ano letivo. Chegar antes da aula, não depois da nota. Acolher o estudante no começo da caminhada, não vesti-lo para a festa de encerramento. Mas em Mogi, a promessa tardia foi dita como se fosse virtude, como se não houvesse erro nenhum em deixar os alunos dez meses sem aquilo que foi prometido — e orçado — no papel. A verdade é simples: não se pode vestir a dignidade com pano entregue fora de tempo . Essa história toda escancara ...

Uniformes, Equidade e Outros Mitos: quando a política pública veste a fantasia da justiça

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Em tempos de orçamento apertado, desigualdades escancaradas e escolas públicas desafiadas por múltiplas urgências, a aquisição de uniformes escolares parece um gesto simples e nobre: vestir os estudantes, padronizar a aparência, garantir equidade. Mas será mesmo? Em Mogi das Cruzes, a novela dos uniformes escolares se tornou símbolo de algo mais profundo — e mais perigoso: o uso de mitos modernos para maquiar decisões políticas e esconder desigualdades históricas sob o véu da “técnica” e da “eficiência”. No final de 2024, ainda sob a gestão anterior, foi lançado um edital de quase R$ 100 milhões para aquisição de kits de uniforme para estudantes da rede municipal. O número de kits previstos superava em mais de duas vezes o número real de alunos matriculados. O Tribunal de Contas interveio, suspendeu o processo e apontou a falta de planejamento, risco ao erário e ausência de justificativas técnicas. Era o primeiro ato de um roteiro marcado pela nebulosidade. Veio 2025 e, com ele, ...