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Justiça e reexistência: uma carta aberta ao Santíssimo Papa Leão XIV

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No dia de hoje, fostes eleito sucessor de Pedro. A vossa chegada ao trono pontifício ocorre num tempo em que os gritos da Terra e dos pobres já não podem mais ser abafados com incenso. Em vossa mão repousa a cruz dos crucificados da história — os trabalhadores precarizados, os povos indígenas dizimados, as mulheres silenciadas, os corpos racializados, a juventude órfã de futuro. Diante de vós, o desafio não é apenas guiar a barca da Igreja, mas ouvir o clamor dos que sequer foram admitidos na margem da história oficial. Viemos, por esta carta, vos saudar com esperança e inquietação. O espírito da Rerum Novarum: o que nos ensinastes Em 1891, vosso predecessor Leão XIII teve a coragem de dar nome ao escândalo da exploração. A Rerum Novarum foi um sopro profético numa era em que o trabalho era tratado como mercadoria e o pobre como resíduo. Com ela, aprendemos que a justiça social não é adorno doutrinário, mas exigência evangélica. Que o salário deve ser justo. Que o trabalhador nã...

A Escola Não É Quartel: sobre a decisão do STF e a luta viva por uma educação libertadora

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Há poucos dias, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, decidiu suspender o julgamento sobre a imposição do modelo cívico-militar em escolas públicas estaduais de São Paulo. A decisão — tomada no dia 2 e publicada no dia 5 de maio — ainda pode ser revisada. Mas seu gesto é simbólico e estratégico: um freio necessário no avanço silencioso de uma política autoritária que vem se enraizando sem diálogo, sem base científica e sem escuta da comunidade escolar. Não se trata apenas de uma medida jurídica. Trata-se de uma brecha aberta na conjuntura. Uma microbatalha vencida dentro de uma guerra longa. Uma pausa para respirar. Para reorganizar nossas forças. Para lembrar que a escola pública — essa instituição de tantas dores e esperanças — ainda pode ser defendida, reimaginada e libertada. Não há ingenuidade aqui. Sabemos que novas decisões podem surgir a qualquer momento, revertendo essa suspensão. Mas sabemos também que a história não se move apenas pelos grandes veredictos...

A tentativa de silenciar por falsificação

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  “Ela só leu o que estava ali” – A palavra, o corte e a verdade Na sessão do dia 30 de maio de 2025, na Câmara Municipal de Mogi das Cruzes, a vereadora Inês Paz ocupava o lugar de secretária da mesa diretora. Como prevê o regimento, sua função naquele momento era a de ler as proposituras que seriam apreciadas pela casa legislativa, incluindo moções, indicações e requerimentos de diversos parlamentares. Entre essas proposituras, havia uma moção de apoio à implantação de escolas cívico-militares, apresentada por outro vereador. Inês, como secretária, fez a leitura do texto — como é sua obrigação institucional. Mas depois, nas redes sociais, a fala de Inês foi recortada, retirada de contexto e usada como se fosse uma declaração pessoal de apoio à moção. O vídeo, editado de forma maliciosa, sugere que a vereadora defende algo que sempre combateu com firmeza: a militarização da educação. A tentativa de silenciar por falsificação Esse tipo de corte não é ingênuo. É uma estr...

A costura da ilusão: o uniforme como remendo de má gestão

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“Governar não é distribuir pano. É tecer dignidade com o fio do povo.” — Ppplebeu, linha torta da história. Em Mogi das Cruzes, a prefeita subiu ao palco e anunciou, com a leveza de quem distribui bênçãos, que os uniformes escolares chegarão até o final do ano . A plateia aplaudiu. A imprensa registrou. A política seguiu seu teatro. Mas aqui no ppplebeu , a gente não aplaude antes de fazer a costura crítica. Uniforme no fim do ano não é política pública. É disfarce. É remendo. O uniforme escolar deveria ser um símbolo de dignidade para o início do ano letivo. Chegar antes da aula, não depois da nota. Acolher o estudante no começo da caminhada, não vesti-lo para a festa de encerramento. Mas em Mogi, a promessa tardia foi dita como se fosse virtude, como se não houvesse erro nenhum em deixar os alunos dez meses sem aquilo que foi prometido — e orçado — no papel. A verdade é simples: não se pode vestir a dignidade com pano entregue fora de tempo . Essa história toda escancara ...

Uniformes, Equidade e Outros Mitos: quando a política pública veste a fantasia da justiça

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Em tempos de orçamento apertado, desigualdades escancaradas e escolas públicas desafiadas por múltiplas urgências, a aquisição de uniformes escolares parece um gesto simples e nobre: vestir os estudantes, padronizar a aparência, garantir equidade. Mas será mesmo? Em Mogi das Cruzes, a novela dos uniformes escolares se tornou símbolo de algo mais profundo — e mais perigoso: o uso de mitos modernos para maquiar decisões políticas e esconder desigualdades históricas sob o véu da “técnica” e da “eficiência”. No final de 2024, ainda sob a gestão anterior, foi lançado um edital de quase R$ 100 milhões para aquisição de kits de uniforme para estudantes da rede municipal. O número de kits previstos superava em mais de duas vezes o número real de alunos matriculados. O Tribunal de Contas interveio, suspendeu o processo e apontou a falta de planejamento, risco ao erário e ausência de justificativas técnicas. Era o primeiro ato de um roteiro marcado pela nebulosidade. Veio 2025 e, com ele, ...

CARTA ABERTA – 19 DE ABRIL: O TEMPO DOS POVOS ORIGINÁRIOS E A PARTIDA DE FRANCISCO

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Quando éramos crianças, aprendíamos na escola que o dia 19 de abril era o "dia do índio". As semanas que antecediam a data eram preenchidas por desenhos em cartolina, cocares de papel, textos ditados e festas ensaiadas. Com mãos infantis, tentávamos reproduzir aquilo que os livros didáticos nos diziam ser a cultura indígena. Havia nesse gesto algo de bonito, uma tentativa de aproximação — mas também uma ausência profunda: a ausência de escuta real, de respeito à diversidade, de reconhecimento da presença viva dos povos originários em nosso país e no mundo. Como tantos de nós, fomos ensinados a ver o indígena como passado, como figura folclórica, como personagem que já não habita o agora. Mas os povos originários estão vivos. Estão nos rios, nas matas, nas periferias, nas aldeias urbanas e rurais. Estão nos rituais e nos corpos, nas línguas que resistem ao silêncio forçado, nas técnicas de cuidado com a terra que salvam a vida e desafiam o lucro. Estão nos saberes que atraves...

Os limites do tempo vivido: por que civilizações inteiras deixam de existir?

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A vida humana só é possível em comunidade em relação com a natureza e com o outro. Vivemos um tempo-limite. Um tempo em que a espessura que dá substância a história se comprime em bytes, e a existência humana tem a oportunidade de se equilibrar entre telescópios que decifram galáxias e algoritmos que decidem o preço do pão. Nesse tempo, perguntamo-nos: por que tantas civilizações morreram? O que permanece? E o que em nós nos sabota, impedindo uma evolução que dure mais do que um suspiro no tempo profundo? Esta série de sonetos nasce como tentativa poética de uma vivência teimosa de atravessar essa pergunta. Em vez de propor respostas definitivas, os versos tentam habitar a dúvida, convocar o espanto e escutar o sussurro do que insiste em viver. A poesia aqui é porto e passagem. Caminho que acolhe a reflexão antes do manifesto, a escuta antes da teoria, o grito antes da marcha. Que esta leitura seja um rito de reencontro com aquilo que pode, enfim, reencantar o mundo.   ...