22 de abril: entre a terra celebrada e a terra violada - A morte da Varzea do Tietê


Existe uma contradição que atravessa este dia como uma ferida aberta, uma daquelas que não se escondem mais sob narrativas confortáveis, porque de um lado se fala em Dia Mundial da Terra, se invoca cuidado, equilíbrio, sustentabilidade, se produzem discursos que afirmam a importância da vida e do território, e de outro lado, no mesmo tempo, no mesmo espaço, no mesmo chão, assistimos à terra sendo reconfigurada pela força, pela máquina, pelo interesse, pela decisão que não consulta e pelo gesto que transforma o que deveria ser protegido em objeto de intervenção.

O 22 de abril, que durante tanto tempo foi ensinado como início, como marco de um suposto nascimento, revela-se hoje como continuidade, como repetição de uma lógica que não terminou, apenas mudou de forma, porque se antes a terra era apropriada pela imposição direta, hoje ela é apropriada por meio de processos que se apresentam como técnicos, administrativos, legais, mas que carregam, em sua essência, a mesma ruptura fundamental entre a vida e o uso, entre o território e o lucro, entre o comum e a apropriação.

E essa contradição deixa de ser abstrata quando olhamos para a várzea do Rio Tietê em Suzano, quando olhamos para o que está sendo feito, para o que já foi feito, para o que está registrado não apenas em palavras, mas em imagens, em documentos, em marcas visíveis no próprio corpo da terra, porque ali não estamos diante de hipótese, não estamos diante de debate acadêmico, estamos diante de intervenção concreta, de solo movimentado, de áreas aterradas, de água deslocada, de um sistema vivo sendo pressionado a se comportar como terreno disponível.

As imagens falam antes de qualquer discurso, mostram o avanço sobre a várzea, mostram a ruptura da continuidade ecológica, mostram a tentativa de fixar o que deveria permanecer fluido, e quando essas imagens encontram os documentos, o quadro se completa, porque o que aparece não é apenas ação, mas também histórico, pareceres, processos, registros que indicam que não se trata de desconhecimento, mas de escolha, e escolha consciente produz responsabilidade.

A própria nota pública do movimento em defesa da APA do Rio Tietê afirma com clareza que não estamos diante de interpretações, mas de decisões concretas que produzem consequências reais e irreversíveis para a população , e essa afirmação não é retórica, ela se sustenta na experiência cotidiana de quem vive o território, de quem vê a água chegar onde antes não chegava, de quem percebe que o que está em curso não é apenas uma obra, mas uma alteração profunda nas condições de vida.

E é aqui que a contradição se torna insustentável, porque não é possível celebrar a terra enquanto se permite sua degradação, não é possível falar em futuro enquanto se compromete a base material desse futuro, não é possível invocar desenvolvimento quando o que se produz é aumento de risco, de vulnerabilidade, de desigualdade territorial.

O que está em jogo não é apenas um erro de gestão ou uma divergência técnica, é a adoção de um caminho, é a opção por um modelo que trata o território como ativo econômico, que identifica áreas sensíveis como oportunidades de valorização, que avança sobre espaços frágeis e depois busca legitimar esse avanço, transformando proteção em obstáculo e destruição em progresso.

Essa opção precisa ser nomeada, porque sem nome não há enfrentamento, e o que se observa é a presença de uma política de apropriação do patrimônio ambiental que se sustenta na combinação entre interesse econômico, decisão administrativa e fragilidade dos mecanismos de controle, criando um ambiente onde o que deveria ser exceção se torna prática recorrente.

Ao mesmo tempo, a luta também se materializa, não como abstração, mas como movimento concreto, como organização, como presença, como denúncia, como articulação de lideranças que se colocam ao lado do território, como mostra o próprio registro do movimento que reúne vozes, ações e iniciativas que atravessam Suzano, Poá e Itaquaquecetuba na defesa da várzea , indicando que não estamos diante de um conflito isolado, mas de uma disputa que mobiliza regiões, trajetórias e compromissos.

E essa disputa revela algo fundamental, que talvez seja o núcleo deste 22 de abril, que não há neutralidade possível quando a terra está sendo transformada dessa forma, porque o território responde às decisões, não aos discursos, responde ao que se faz, não ao que se diz, e as consequências recaem sempre sobre quem vive, nunca sobre quem decide.

Por isso, este não é um texto de celebração, é um texto de posicionamento, porque se a história um dia foi contada como descoberta, hoje ela precisa ser reconhecida como disputa, disputa pelo sentido da cidade, disputa pelo uso da terra, disputa pelo direito ao futuro, disputa pela possibilidade de existir em um território que não seja permanentemente reorganizado contra aqueles que nele vivem.

A várzea do Tietê não é um vazio, não é sobra, não é reserva de oportunidade, ela é estrutura viva, ela é proteção, ela é memória ecológica, ela é condição de equilíbrio, e tratá-la como outra coisa é não apenas um erro técnico, é uma escolha política com consequências históricas.

E diante disso, não há mais espaço para ambiguidade, porque este 22 de abril exige coerência, exige que se diga com clareza que não se pode estar ao mesmo tempo ao lado da terra e contra ela, que não se pode celebrar a natureza enquanto se autoriza sua destruição, que não se pode falar em cidade enquanto se compromete o território que a sustenta.

A várzea segue sendo pressionada, mas também segue sendo defendida, e essa defesa não nasce apenas da indignação, nasce da compreensão de que há limites que não podem ser ultrapassados sem que tudo o que conhecemos como vida urbana se torne instável, incerto e profundamente injusto.

A terra não foi descoberta, ela está sendo disputada.

E este é o tempo de escolher de que lado estamos.

Tem luta.

Sigamos!!

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