2026 Organizar a esperança: a campanha que deve anunciar o futuro
As eleições de 2026 representam uma escolha decisiva para o Brasil. Precisamos eleger nossos representantes, preservar a democracia e derrotar o projeto político da extrema direita bolsonarista e de seus aliados liberais. Mas isso, embora indispensável, não é suficiente.
Uma campanha popular não pode ser apenas uma operação destinada a conquistar votos. Ela precisa contribuir para produzir consciência, organização e capacidade coletiva de ação. Mais do que anunciar um futuro diferente, deve começar a construí-lo em suas próprias práticas.
Da consciência à responsabilidade
“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.”
A pobreza de espírito mencionada no Sermão da Montanha não significa ignorância, passividade ou falta de discernimento. Ela expressa a recusa da soberba e da autossuficiência; representa o reconhecimento de que ninguém se realiza sozinho e de que a dignidade de cada pessoa está ligada à dignidade de todas as outras.
Não somos individualmente culpados por todas as desigualdades, estruturas de opressão, formas de racismo e mecanismos de exclusão que recebemos como herança histórica. Não escolhemos o mundo no qual nascemos. Entretanto, quando tomamos conhecimento dessas injustiças e compreendemos os interesses que as sustentam, passamos a ser responsáveis pela maneira como nos posicionamos diante delas.
A consciência retira de nós o conforto da neutralidade.
Conhecer uma injustiça e permanecer indiferente significa permitir que ela continue operando. Perceber uma estrutura de dominação e reproduzi-la em nossas relações significa participar de sua continuidade. O conhecimento, portanto, não é apenas esclarecimento: é convocação para a escolha e para a ação.
Sabendo, com a irreverência de nossa cultura, que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”, também precisamos rejeitar as concepções que transformaram nossas diferenças culturais, nossa história e nossa identidade em sinais de inferioridade. Isso não significa abandonar a ética, mas reconstruí-la a partir da dignidade humana, da solidariedade e da justiça.
Vencer a eleição e construir poder popular
Derrotar o autoritarismo nas urnas é uma necessidade histórica. A extrema direita não representa somente um conjunto de candidaturas. Ela carrega uma concepção de sociedade fundada no medo, na violência, na concentração do poder, na perseguição às diferenças e na transformação dos direitos sociais em mercadorias.
Seus aliados liberais, mesmo quando utilizam uma linguagem aparentemente moderada, frequentemente defendem políticas que aprofundam as desigualdades, precarizam o trabalho, enfraquecem os serviços públicos e submetem a vida social aos interesses do mercado.
Por isso, precisamos vencer as eleições. Mas devemos reconhecer que uma vitória exclusivamente eleitoral pode ser frágil. Podemos conquistar governos e parlamentos sem alterar profundamente as relações de dependência, desinformação e desmobilização que sustentam o poder conservador.
Nosso desafio é articular três objetivos inseparáveis: conquistar a vitória eleitoral, ampliar a consciência política e fortalecer a organização popular.
Não queremos somente eleger representantes para agir em nome do povo. Queremos que a própria população compreenda os projetos em disputa, participe das decisões e desenvolva força organizada para defender seus direitos antes, durante e depois das eleições.
A campanha como prática libertadora
Uma campanha libertadora precisa guardar coerência entre os valores que proclama e as práticas que realiza.
Não podemos defender a participação popular e organizar tudo de cima para baixo. Não podemos falar em dignidade e tratar trabalhadores e militantes como simples instrumentos. Não podemos condenar a mentira e recorrer à desinformação. Não podemos defender a igualdade e reproduzir, dentro de nossas organizações, o racismo, o machismo, o autoritarismo ou os privilégios que afirmamos combater.
Nossos valores devem aparecer no cotidiano da campanha.
A barraca de rua não deve ser apenas um lugar de entrega de panfletos. Pode tornar-se um ponto de encontro, escuta e diálogo sobre os problemas do bairro.
A panfletagem não precisa ser uma atividade mecânica, medida somente pela quantidade de materiais distribuídos. Pode ser uma oportunidade para estabelecer vínculos, ouvir experiências e apresentar, com respeito, as diferenças entre os projetos políticos.
A reunião não deve servir apenas para transmitir ordens. Precisa permitir a análise da realidade, a manifestação das divergências e a construção coletiva das decisões.
O apoiador não pode ser considerado somente alguém que segura uma bandeira ou repete uma palavra de ordem. É uma pessoa capaz de compreender, argumentar, tomar decisões e organizar outras pessoas.
Os trabalhadores da campanha precisam ter condições dignas, orientação adequada, segurança, respeito e remuneração justa. A campanha que defende direitos não pode precarizar aqueles que trabalham por sua realização.
Também devemos prestar contas das decisões, dos recursos, das metas e das dificuldades. A transparência fortalece a confiança e educa para uma nova cultura política.
A organização que permanece
As organizações políticas, sociais, sindicais, culturais e econômicas das quais fazemos parte precisam ser permanentemente tensionadas a agir de maneira estratégica. Devem responder às necessidades imediatas sem abandonar os objetivos de médio prazo e o horizonte histórico de transformação social.
Uma campanha pode distribuir materiais, realizar reuniões, conquistar votos e eleger candidatos. Mas seu legado será muito maior se também formar novas lideranças, criar núcleos territoriais, fortalecer vínculos comunitários e desenvolver uma consciência capaz de permanecer ativa depois da abertura das urnas.
Cada atividade deve deixar alguma semente de organização.
Cada conversa pode despertar uma pergunta.
Cada pergunta pode produzir consciência.
Cada consciência pode encontrar outras consciências.
E consciências organizadas podem transformar a realidade.
Fazer do caminho parte da chegada
A fé que não se transforma em compromisso corre o risco de tornar-se consolo vazio. O conhecimento que não produz responsabilidade pode converter-se em privilégio. E a consciência que não se organiza dificilmente encontra força suficiente para modificar as estruturas da sociedade.
Não basta compreender o mundo. Não basta desejar que ele seja diferente. Também não basta vencer uma eleição e esperar que os representantes eleitos realizem, sozinhos, todas as transformações necessárias.
Precisamos organizar a esperança.
Isso significa transformar nossos valores em práticas cotidianas; fazer de cada espaço coletivo uma escola de participação; preparar pessoas para pensar, decidir e agir; construir força popular para sustentar as conquistas democráticas e enfrentar as estruturas de opressão, racismo e exploração.
Queremos vencer as eleições de 2026 porque sabemos o que está em risco. Mas queremos uma vitória que vá além das urnas: uma vitória que amplie a consciência, fortaleça a organização popular e abra caminhos para a justiça social e para a superação da sociedade de classes.
Uma campanha libertadora não promete apenas o mundo que pretende construir amanhã. Ela procura fazer nascer, em cada gesto de hoje, as primeiras formas desse novo mundo.
Os meios que escolhemos já devem carregar as sementes de nossos fins.

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