A matéria que aprendeu a perguntar
Há uma evidência elementar que, embora pareça simples, sustenta grande parte da compreensão sobre a existência humana: o homem e a mulher são entes que existem em sociedade. Não apenas vivem próximos de outros seres humanos, mas são constituídos pelas relações que estabelecem.
A
linguagem, a memória, o trabalho, os afetos, os valores, os conflitos, as
instituições e os projetos de futuro não surgem no isolamento. A humanidade não
é uma qualidade produzida por um indivíduo solitário. Ela se forma na vida
comum.
Por isso,
nossa natureza não pode ser compreendida apenas em sua dimensão biológica.
Somos sustentados por uma relação permanente entre objetividade e
subjetividade. De um lado, há o corpo, o território, o trabalho, as condições
materiais, a história e as estruturas sociais que nos antecedem. De outro, há a
consciência, os desejos, os medos, as crenças, os juízos e os sentidos que
construímos sobre aquilo que vivemos.
O mundo nos
forma, mas nós também interpretamos e transformamos o mundo.
Essa
condição relacional, contudo, não pertence exclusivamente aos seres humanos.
Nenhuma forma de vida existe de maneira absolutamente isolada. Animais,
vegetais, fungos, bactérias e inúmeros outros organismos participam de uma
vasta interdependência biológica.
Todos são
atravessados pela atmosfera, pela água, pelo solo, pela luz, pelos ciclos
naturais e pelos ecossistemas dos quais fazem parte. A vida depende de outras
formas de vida. O indivíduo, mesmo quando parece autônomo, existe sustentado
por relações que o antecedem e que muitas vezes permanecem invisíveis.
A
singularidade humana talvez não esteja, portanto, em ser relacional, mas em
possuir a capacidade de transformar a própria relação em objeto de
conhecimento.
O ser
humano não apenas habita um ecossistema. Pode estudá-lo, descrevê-lo,
criticá-lo e formular responsabilidades diante dele. Pode compreender que
determinada forma de produção destrói o solo, contamina a água ou altera o
clima. Pode reconhecer que suas escolhas afetam outras espécies, outros povos e
gerações que ainda não nasceram.
Essa
capacidade de pensar criticamente as condições da própria existência possui
natureza epistemológica. Não apenas vivemos: procuramos saber como a vida é
possível. Não apenas pertencemos ao mundo: perguntamos pelo significado desse
pertencimento.
Talvez essa
faculdade também pertença aos deuses. Contudo, não sabemos se os deuses existem
fora da fé, da experiência religiosa e das construções simbólicas que fazem
parte de uma dimensão muito particular da natureza humana.
Podemos não
saber se há uma consciência divina independente de nós. Sabemos, porém, que a
ideia de divindade existe na história humana, produz valores, organiza
comunidades, inspira obras, fundamenta esperanças e participa da forma como
muitos compreendem a vida e a morte.
Há, no
entanto, realidades cuja existência percebemos de modo profundo, mesmo sem
conseguirmos explicá-las definitivamente. Duas delas são o espaço e o tempo.
Essas
palavras parecem pequenas diante daquilo que procuram nomear.
Vivemos no
espaço, atravessamos distâncias, ocupamos territórios e construímos lugares.
Mas o espaço não é apenas extensão. Para nós, pode ser casa, fronteira,
caminho, exílio, abrigo, propriedade ou pertencimento. Um mesmo território pode
ser vivido de maneiras diferentes por quem nele nasceu, por quem o governa, por
quem o explora e por quem dele foi expulso.
Também
vivemos no tempo. Medimos horas, dias e anos, mas o tempo humano não se reduz
ao relógio. Há o tempo da espera, o tempo da memória, o tempo da infância, o
tempo do sofrimento, o tempo da esperança e o tempo da história.
Uma hora de
alegria e uma hora de angústia possuem a mesma duração cronológica, mas não a
mesma densidade existencial.
Espaço e
tempo não são apenas objetos de conhecimento. São condições de toda experiência
possível. Tudo aquilo que existe ocupa alguma posição e atravessa alguma
duração. Entretanto, quanto mais avançamos em sua compreensão, mais percebemos
que eles não são recipientes imóveis nos quais os acontecimentos simplesmente
se depositam.
Espaço e
tempo constituem a própria relação entre os acontecimentos.
Essa
compreensão nos conduz para além da atmosfera terrestre. Procuramos entender as
estrelas, os planetas, as galáxias e os demais elementos que compõem o
universo. Entretanto, observar uma estrela não significa vê-la tal como ela é
no mesmo instante em que a contemplamos.
A luz leva
tempo para percorrer o espaço.
Quando
olhamos uma estrela distante, vemos a luz que ela emitiu no passado. O céu
noturno é, por isso, uma espécie de memória visível do universo. Aquilo que
aparece diante de nossos olhos como presente pode ser a imagem de um
acontecimento ocorrido há dezenas, centenas ou milhões de anos.
Olhar para
o espaço é também olhar para o tempo.
Isso não
significa que nós e as estrelas pertençamos a realidades separadas. Ao
contrário, pertencemos ao mesmo universo, ao mesmo tecido de relações e à mesma
história material. Estamos unidos pela matéria, pela energia, pela causalidade
e pelos processos cósmicos que tornaram nossa existência possível.
Os
elementos químicos que compõem nossos corpos foram produzidos ao longo da
história do universo, muitos deles no interior de estrelas ou em acontecimentos
ligados à sua transformação.
Não apenas
observamos as estrelas. Somos, em alguma medida, resultado delas.
Aquilo que
olha para o universo também foi produzido pelo universo. Em nós, uma parte da
matéria tornou-se capaz de interrogar sua própria origem.
Essa
constatação conduz a outro problema: não existe, segundo a física
relativística, um “agora” universal que se imponha igualmente a todos os
observadores distantes.
Cada
observador percorre uma trajetória própria no espaço-tempo. Seu relógio, sua
velocidade e sua posição participam da forma como mede a duração e organiza os
acontecimentos. Dois observadores podem discordar sobre quais eventos distantes
são simultâneos sem que um deles esteja necessariamente errado.
Isso não
significa que existam universos desconectados ou tempos inteiramente privados.
Significa apenas que o presente absoluto, estendido de maneira uniforme por
todo o cosmos, não parece fazer parte da estrutura física conhecida.
O “agora” é
rigorosamente local.
Quando duas
trajetórias se cruzam, porém, há um acontecimento comum. Dois observadores
podem encontrar-se, comparar seus relógios, confrontar suas memórias e
reconhecer que percorreram durações diferentes.
Não são
propriamente os “agoras” que se encontram. São os seres e suas histórias
temporais que convergem num acontecimento.
Aquilo que
era futuro torna-se presença. Aquilo que foi presença torna-se memória.
É nesse
ponto que surge a ideia de um observador único.
Nossa
intuição consegue imaginar uma consciência capaz de abranger todos os
acontecimentos, todos os lugares e todos os tempos. Um observador onisciente,
infinito e onipresente poderia perceber a totalidade sem depender da velocidade
da luz, da distância ou de um ponto particular de observação.
Fisicamente,
essa hipótese parece improvável. Todo observador material conhecido ocupa uma
posição, percorre uma trajetória e recebe informações de maneira limitada.
Nenhum corpo situado no universo pode estar simultaneamente em todos os lugares
ou receber imediatamente tudo o que acontece.
Um
observador absoluto, portanto, não poderia ser apenas um ser físico
extraordinariamente poderoso. Teria de existir de outra maneira.
Ele não
estaria em algum lugar, pois isso já o tornaria localizado. Não viveria um
instante após o outro, pois isso o submeteria à sucessão temporal. Não
possuiria apenas um “agora”, mas conheceria todos os tempos próprios, todas as
trajetórias e todas as relações.
Essa ideia
pode ser chamada de Deus, espírito absoluto, consciência cósmica ou totalidade
inteligível. Entretanto, sua possibilidade conceitual não prova sua existência.
Ela pertence ao campo da metafísica e da fé, não ao da demonstração científica.
Ainda
assim, o fato de sermos capazes de concebê-la não é insignificante.
Somos seres
finitos capazes de pensar o infinito. Somos observadores localizados capazes de
imaginar uma perspectiva universal. Vivemos durante um período muito breve e,
mesmo assim, perguntamos pela origem e pelo destino do cosmos.
Talvez isso
diga menos sobre a existência de um observador absoluto do que sobre a
inquietação do espírito humano.
A unidade
de todas essas questões encontra-se na relação.
Não há
indivíduo humano sem sociedade. Não há vida sem ecossistema. Não há
acontecimento sem espaço e tempo. Não há conhecimento sem perspectiva. Não há
consciência sem um mundo que possa ser percebido, interpretado e compartilhado.
Existimos
biologicamente em relação com outras formas de vida.
Existimos
socialmente por meio da linguagem, do trabalho, da cultura e das instituições.
Existimos
historicamente porque recebemos um mundo produzido antes de nós e entregamos
outro àqueles que virão depois.
Existimos
cosmicamente porque nossos corpos e nosso planeta pertencem à história material
do universo.
Existimos
epistemologicamente porque somos capazes de investigar essas relações, embora
nosso conhecimento permaneça parcial, situado e revisável.
Existimos
eticamente porque aquilo que sabemos pode transformar-se em responsabilidade.
E existimos
politicamente porque precisamos decidir, coletivamente, como organizar as
relações que sustentam a vida.
Nem todas
essas dimensões podem ser alcançadas pelo mesmo caminho. Algumas são percebidas
diretamente. Outras são reconstruídas pela ciência. Outras permanecem como
questões filosóficas, experiências religiosas ou hipóteses metafísicas.
O rigor
exige que não confundamos esses campos. Mas também seria um erro separá-los de
tal modo que já não pudéssemos reconhecer a pergunta comum que os atravessa:
como cada ser participa de uma realidade maior do que ele próprio?
Talvez não
possamos alcançar a totalidade. Nenhum indivíduo dispõe de um olhar absoluto.
Podemos, porém, ampliar nossos horizontes, confrontar perspectivas, corrigir
erros e construir conhecimentos compartilhados.
A busca
pela totalidade não precisa ser a pretensão de um sujeito isolado. Pode ser uma
obra coletiva, histórica e sempre inacabada.
Não
conhecemos o universo de fora. Somos parte daquilo que procuramos compreender.
Por isso, toda pergunta sobre a realidade é também uma pergunta sobre nós
mesmos.
Somos
matéria que adquiriu consciência.
Somos vida
que interrogou sua origem.
Somos
sociedade capaz de julgar suas próprias instituições.
Somos
natureza capaz de reconhecer a interdependência que a sustenta — e também capaz
de destruí-la.
Nossa
limitação não impede a busca do conhecimento. Ao contrário, é justamente porque
não vemos tudo que precisamos uns dos outros.
A relação
não é apenas o objeto de nosso conhecimento.
É também o
caminho pelo qual podemos conhecer.

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