Partidos, mediação política e formação da consciência em uma conjuntura de crise estrutural
Vivemos uma conjuntura marcada por profundas contradições sociais, políticas, econômicas, culturais e civilizatórias. A sociedade brasileira carrega uma longa tradição de lutas por democracia, direitos sociais, soberania nacional, igualdade, participação popular e reconhecimento. Ao mesmo tempo, permanece submetida a uma estrutura histórica de opressão, desigualdade e dominação, continuamente renovada pelas formas contemporâneas da crise capitalista, pela crise climática e ambiental, pela crise da representação política, pela precarização do trabalho, pela financeirização da vida, pela violência urbana, pelos preconceitos estruturais, pelo patriarcado, pela violência de gênero, pelo racismo, pela concentração da riqueza e pela captura privada de dimensões essenciais do Estado e da vida social.
Nesse cenário, estudar os
partidos políticos e sua formação exige ultrapassar a aparência formal das
instituições. Os partidos são, em tese, instrumentos de mediação entre as
demandas sociais e o Estado. Eles deveriam organizar interesses, formular programas,
formar lideranças, representar sujeitos coletivos, disputar projetos de
sociedade e transformar reivindicações populares em ação pública. No entanto,
essa mediação não ocorre em um espaço puro, transparente ou equilibrado. Ela se
realiza em uma sociedade profundamente assimétrica, na qual as classes
dominantes, os grupos econômicos, os aparelhos ideológicos, os meios de
comunicação, as estruturas religiosas, o sistema financeiro, as redes digitais
e as formas institucionais do poder disputam permanentemente a interpretação da
realidade e a direção da vida coletiva.
Por isso, os partidos não podem
ser compreendidos apenas como siglas eleitorais, estruturas jurídicas ou
máquinas de disputa do Estado. Eles precisam ser analisados como instrumentos
históricos que se formam no interior de conflitos sociais concretos. São
atravessados por interesses de classe, valores culturais, disputas ideológicas,
formas de consciência, heranças institucionais, projetos econômicos e práticas
organizativas. Ao mesmo tempo em que podem expressar a dor social e organizar a
esperança coletiva, também podem ser capturados pela lógica da reprodução do
poder, pela acomodação institucional, pelo personalismo, pelo pragmatismo
eleitoral vazio ou pela redução da política à gestão do possível dentro dos
limites impostos pela ordem dominante.
A atual fase da crise capitalista
amplia essas contradições. O modelo de produção dominante não apenas organiza a
economia; ele também organiza desejos, expectativas, medos, linguagens e formas
de percepção. A mercadoria, o consumo, a concorrência, o individualismo, o
endividamento, a produtividade sem sentido humano e a transformação de direitos
em serviços compráveis produzem uma forma de vida na qual as relações sociais
aparecem dissimuladas. O fetiche encobre a exploração. A aparência de liberdade
encobre a dependência. A promessa de mérito individual encobre a desigualdade
estrutural. A ideia de escolha encobre a ausência real de alternativas para
grandes parcelas da população.
Essa apropriação ideológica da
realidade é uma das dimensões centrais da dominação contemporânea. A força
hegemônica do capital não atua apenas pela coerção econômica ou pela imposição
institucional. Atua também pela produção de senso comum, pela naturalização da
desigualdade, pela desmoralização da política, pela tentativa de desconstrução
da ciência, pela disseminação da desinformação, pela fragmentação da
consciência social, pela exploração dos ressentimentos e pela fabricação de
inimigos convenientes. Em tempos de crise, o medo é frequentemente mobilizado
contra a solidariedade; a insegurança é usada contra a liberdade; a dor social
é desviada contra os mais vulneráveis; e a política é reduzida a espetáculo,
moralismo seletivo ou guerra permanente de narrativas.
A crise capitalista se combina,
ainda, com uma crise civilizatória mais ampla. A destruição ambiental, o
colapso climático, a degradação dos territórios, a mercantilização da natureza,
o avanço de guerras e disputas geopolíticas beligerantes, o imperialismo em
suas novas e antigas formas, a concentração tecnológica e financeira e a
precarização global da vida revelam que não estamos diante de problemas
isolados. Estamos diante de um modelo de organização social que ameaça as
próprias bases materiais, simbólicas e éticas da existência coletiva. A crise
não é apenas econômica; é também ecológica, cultural, democrática, subjetiva e
espiritual.
As eleições brasileiras de 2026
acrescentam a essa conjuntura uma dimensão decisiva. Não se trata apenas de
mais um ciclo eleitoral no calendário institucional do país. Trata-se de uma
disputa que incide sobre a direção do Estado brasileiro em um momento de forte
instabilidade mundial, de recomposição das relações geopolíticas, de
tensionamento dos blocos econômicos e políticos, de crise das instituições
multilaterais e de tentativas recorrentes de enfraquecer, manipular ou
instrumentalizar organismos de governança global. O Brasil, por sua dimensão
territorial, peso ambiental, relevância econômica, capacidade diplomática,
inserção no Sul Global e participação em espaços como BRICS, G20, Mercosul e
fóruns climáticos internacionais, não decide apenas sobre si mesmo quando
redefine seus rumos políticos internos. Sua orientação nacional repercute em
disputas mais amplas sobre soberania, democracia, desenvolvimento, paz,
integração regional, justiça climática e equilíbrio entre potências.
Por isso, as eleições de 2026
precisam ser compreendidas como parte de uma encruzilhada histórica mais ampla.
Em um mundo marcado por guerras, disputas comerciais, financeirização,
concentração tecnológica, emergência climática, avanço de forças autoritárias,
ataques à ciência e tentativas de substituir a cooperação internacional pela
lógica da força, o sentido político assumido pelo Brasil possui consequências
que ultrapassam suas fronteiras. A disputa eleitoral brasileira dialoga com a
crise do multilateralismo, com a reorganização dos blocos econômicos, com a
defesa ou fragilização das instituições democráticas, com o papel dos países
emergentes na ordem internacional e com a possibilidade de construir
alternativas ao imperialismo beligerante, à submissão econômica e à destruição
ambiental.
É nesse terreno que os
instrumentos de mediação política se formam. Partidos, movimentos, frentes,
sindicatos, coletivos, pastorais, associações e experiências comunitárias
surgem como tentativas de organizar a passagem entre sofrimento social e ação
histórica. Mas essa passagem é difícil, contraditória e sempre disputada. A
demanda social não chega pura ao Estado. Ela é filtrada por linguagens,
instituições, lideranças, interesses, recursos, meios de comunicação, formas
jurídicas, calendários eleitorais e correlações de força. Do mesmo modo, o
Estado não é uma instância neutra aguardando a expressão da vontade popular.
Ele também é campo de disputa, condensação de forças sociais, espaço de
proteção de direitos, mas também de reprodução de privilégios, controle,
burocratização e captura.
Nesse cenário, os partidos
políticos ganham centralidade ainda maior. Eles são os principais instrumentos
formais de mediação entre a sociedade e o Estado, mas também são peças
decisivas na definição da posição do Brasil diante do mundo. Por meio deles se
organizam candidaturas, programas, alianças, projetos de governo, bancadas
parlamentares, orientações diplomáticas, políticas econômicas, compromissos
ambientais e formas de participação popular. Quando um partido se forma, se
consolida ou se desfigura, não está em jogo apenas sua vida interna; está em
jogo a qualidade da mediação entre a dor social e a decisão pública, entre o
território e o Estado, entre a soberania nacional e as pressões internacionais,
entre a vontade popular e as forças que procuram capturar essa vontade.
Por isso, os estudos da formação
dos partidos, especialmente dos partidos de esquerda no Brasil, precisam
considerar as condições sociais, ideológicas, econômicas, culturais e
organizativas que permitem ou impedem sua consolidação. Não basta perguntar
quando uma sigla foi fundada, quem foram seus dirigentes ou quais eleições
disputou. É preciso perguntar: que dor social lhe deu origem? Que leitura da
realidade organizou sua identidade? Que sujeitos sociais encontrou ou ajudou a
formar? Que linguagem produziu pertencimento? Que método transformou simpatia
em militância, militância em organização e organização em força histórica? Que
relação estabeleceu com o Estado, com a classe trabalhadora, com os
territórios, com a cultura popular e com os conflitos estruturais de seu tempo?
A sequência dor → leitura →
pertencimento → método → poder → transformação pode ser tomada como a
espinha dorsal deste estudo. A dor é o ponto de partida, mas não basta.
Sozinha, ela pode produzir silêncio, medo, ressentimento, revolta difusa ou
submissão. Para se tornar política, a dor precisa ganhar leitura. A leitura
transforma sofrimento em consciência, identifica causas, revela interesses,
desnaturaliza opressões e abre possibilidades. Mas a consciência, isolada,
também não basta. Ela precisa produzir pertencimento, isto é, a passagem do “eu
sofro” para o “nós vivemos uma realidade comum e podemos agir sobre ela”.
O pertencimento inaugura o
sujeito coletivo. É nele que a política ganha corpo, rosto, voz, território e
memória. Porém, sem método, o pertencimento pode se perder em entusiasmo
passageiro, espontaneísmo, fragmentação ou dependência excessiva de lideranças
individuais. O método organiza a esperança. Ele cria rotinas, forma quadros,
distribui tarefas, escuta a base, constrói comunicação, corrige erros, preserva
memória e permite que a organização atravesse o tempo. O método transforma
vontade em força social organizada.
Quando essa força se consolida,
surge a questão do poder. Não apenas o poder institucional, embora este seja
decisivo, mas também o poder presente na economia, na cultura, na comunicação,
no território, nas instituições, nas religiões, nas escolas, nas empresas, nas
tecnologias e nos modos cotidianos de vida. Uma organização política madura
precisa compreender que disputar poder não é apenas ocupar cargos. É disputar
direção histórica, isto é, definir que tipo de sociedade queremos construir,
que interesses devem orientar o Estado, que direitos devem ser protegidos, que
formas de vida devem ser reconhecidas, que relações econômicas devem ser
transformadas e que futuro deve ser aberto às próximas gerações.
A transformação é o critério
final. Uma organização política não se justifica apenas por existir, disputar
eleições ou preservar sua própria estrutura. Ela se confirma quando altera a
realidade, amplia direitos, organiza os que estavam dispersos, forma consciência,
protege a dignidade, fortalece vínculos comunitários, enfrenta opressões,
renova lideranças e abre caminhos para que o povo deixe de ser tratado como
objeto da política e se reconheça como sujeito da história.
Este estudo parte, portanto, de
uma hipótese central: uma organização política se consolida quando consegue
transformar uma contradição social em sujeito coletivo organizado, dotado de
leitura própria, vínculo comunitário, método permanente, estratégia de poder e
projeto de transformação. Os partidos de esquerda, como principal objeto desta
reflexão, serão analisados a partir dessa chave: não apenas como instituições
eleitorais, mas como expressões históricas da tentativa de transformar
sofrimento social em consciência, consciência em pertencimento, pertencimento
em organização, organização em poder e poder em transformação social.
Estudar as condições de formação
de uma organização política é, portanto, estudar as formas pelas quais uma
sociedade em crise tenta produzir consciência sobre si mesma. É compreender
como a vida ferida busca palavra, como a palavra busca povo, como o povo busca
organização e como a organização busca transformar a história. Em tempos de
fetiche, dissimulação, ataque à ciência, fragmentação social, violência
estrutural e crise civilizatória, recuperar esse caminho é uma tarefa teórica,
política e ética. Porque sem instrumentos coletivos de mediação, a dor popular
pode ser capturada pelo medo, pelo ódio ou pela resignação. Mas, quando
encontra leitura, pertencimento, método e projeto, pode se converter em força
histórica de emancipação. (..continua...)
Referências e fontes para
aprofundamento
Fontes institucionais e
documentais
BRASIL. Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988. Especialmente os artigos sobre soberania popular,
partidos políticos, direitos fundamentais, ordem econômica, ordem social e meio
ambiente.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL.
Calendário eleitoral das Eleições 2026. Fonte para datas, cargos em disputa,
regras eleitorais, funcionamento dos partidos e federações partidárias.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL.
Estatísticas eleitorais e dados sobre partidos políticos registrados no Brasil.
IBGE. Síntese de Indicadores
Sociais. Fonte para análise de desigualdade, renda, trabalho, pobreza,
território e condições de vida.
IPEA. Estudos sobre desigualdade,
trabalho, políticas públicas, Estado, democracia e desenvolvimento.
PNUD. Relatórios de
Desenvolvimento Humano. Fonte para análise comparada de desenvolvimento,
desigualdade e capacidades humanas.
IPCC. Relatórios de avaliação
sobre mudanças climáticas. Fonte para compreender a crise climática como
dimensão da crise civilizatória.
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Relações Exteriores; G20 Brasil. Documentos e pronunciamentos sobre
multilateralismo, Sul Global, governança internacional, reforma das
instituições multilaterais, clima, comércio, tecnologia e desenvolvimento.
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