O Processo do Custo e a Jornada 6 x 1
Ele perguntou onde doía.
Responderam: no custo.
Não houve exame clínico. Não houve ausculta.
Não houve análise estrutural. Apenas um número foi apresentado, grave e solene,
como se carregasse a própria essência do organismo social. O número era alto.
Sempre é.
Desta vez, porém, o número tinha origem
identificável: a suspeita de que a jornada 6 x 1 pudesse ser alterada. Cinco
dias de trabalho para um de descanso já pareciam excessivos para alguns. Havia
quem sugerisse redistribuir o tempo. Havia quem falasse em saúde, convivência,
dignidade.
O tribunal foi convocado.
Ele tentou entender.
— Mas a economia não é produção? Não é troca?
Não é circulação de bens, tempo e energia humana?
Olharam-no com paciência técnica.
— A economia é custo. E reduzir a jornada
aumenta o custo.
A frase foi dita com a serenidade de quem
descreve uma lei da gravidade.
Ele recordou-se de ter lido que produtividade
podia crescer. Que reorganizações podiam gerar eficiência. Que inovação
frequentemente surgia da necessidade de adaptar estruturas rígidas. Lembrou-se
também de estatísticas sobre adoecimento laboral, exaustão, acidentes.
— Isso não entra no cálculo? — perguntou.
— Entra — disseram. — Mas não é fundamental.
Fundamental era o custo.
A planilha foi projetada na parede. As células
pulsavam em vermelho. Havia gráficos ascendentes que pareciam febres. A redução
de horas era traduzida automaticamente em cifras alarmantes. Nenhuma coluna
mostrava o tempo recuperado por um pai com seu filho. Nenhuma linha registrava
a queda de afastamentos médicos. Nenhuma aba mencionava o aumento possível de
circulação de renda.
— Esses dados são externos ao modelo —
explicaram.
Ele começou a perceber que o modelo era menor
que a realidade, mas era tratado como maior.
Tentou sair da sala e observar a cidade.
Viu trabalhadores iniciando o sexto dia
consecutivo de jornada. Viu ônibus lotados antes do amanhecer. Viu mãos
repetindo gestos mecânicos. Viu planilhas humanas invisíveis, acumulando fadiga
como se fosse estoque.
Perguntou-se se aquele desgaste não tinha
custo.
Mas quando retornou ao tribunal, disseram-lhe
que aquilo era variável social, não variável econômica.
— Empresa e economia são a mesma coisa —
reafirmaram.
Ele percebeu então que a jornada 6 x 1 não
estava sendo debatida como organização do tempo humano, mas como ameaça
aritmética.
O custo não avaliava vidas. Avaliava margens.
Sempre que alguém pronunciava “redução de
jornada”, a planilha se iluminava. Não havia espaço para discutir estrutura
produtiva, redistribuição de excedente, modernização tecnológica. Apenas uma
pergunta ecoava:
— Quanto custa?
E a pergunta vinha antes da análise, antes da
investigação, antes da reflexão.
O custo era apresentado como sentença prévia.
Ele compreendeu algo perturbador: talvez o
custo não fosse a essência da economia, mas o guardião de suas fronteiras
invisíveis. Um filtro que impedia que o debate ultrapassasse a contabilidade.
Se a jornada 6 x 1 permanecesse intocada, o
custo permaneceria estável. E estabilidade era confundida com saúde.
Mas do lado de fora, a cidade continuava
respirando com dificuldade.
Ele olhou novamente para a planilha. Nela, a
economia cabia inteira — reduzida a uma célula vermelha que piscava com
insistência.
Lá fora, o tempo humano seguia outro ritmo.
O tribunal não ouvia esse ritmo.
O tribunal escutava apenas números.
E os números, como sempre, estavam aumentando.
Salve kafka.

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