Raul Brasil permanece, viva e ferida. Memória e dor.

Há datas que nascem duas vezes.

13 de março, para mim, sempre foi origem — o marco silencioso de ter chegado ao mundo, de ter sido lançado ao tempo, às possibilidades, às relações que constroem o que sou. Durante anos, essa data carregou a leveza discreta dos começos: um dia que, mesmo simples, afirmava a continuidade da vida.

Mas em 2019, esse mesmo dia foi atravessado por outra inscrição.

Na Escola Estadual Raul Brasil, algo se rompeu de forma brutal. A cidade de Suzano, que já habitava em mim como território de pertencimento, tornou-se também território de luto. Não era mais apenas o meu dia — era um dia marcado por ausências, por nomes interrompidos, por histórias que não puderam continuar.

Desde então, 13 de março deixou de ser um ponto fixo. Tornou-se um campo de tensão. Há, de um lado, a vida que insiste — o fato simples e profundo de estar aqui, de continuar, de atravessar os dias. Há, de outro, a memória que pesa — não como algo que escolho lembrar, mas como algo que se impõe, que retorna, que pede lugar. E talvez o mais difícil seja isso: não há separação possível.

A vida não acontece fora da memória.
E a memória, quando é verdadeira, nunca é neutra.

Por isso, hoje, não busco apagar essa sobreposição. Não tento devolver ao dia uma pureza que ele já não tem. Em vez disso, aceito que esta data carrega uma dupla inscrição: ela é, ao mesmo tempo, nascimento e ruptura.

E talvez, justamente por isso, ela exija outra postura.

Não a celebração distraída, mas a presença consciente.
Não o esquecimento, mas a lembrança que se transforma em cuidado.
Não o peso que paralisa, mas o reconhecimento que orienta.

Lembrar, aqui, não é reviver a dor como ferida aberta, todavia recusar que aquilo tenha sido em vão. Temos que sustentar, ainda que em silêncio, a dignidade das vidas que foram interrompidas.

Ousamos afirmar que cada existência importa — inclusive a minha, que continua, mesmo que comum, carregada de sentido.

Se há um gesto possível neste dia, ele não é o de escolher entre celebrar ou lamentar. É o de permanecer e seguir.

Permanecer vivo.
Permanecer atento.
Permanecer humano.

E, nesse gesto, talvez, reconciliar — não o que aconteceu, mas o modo como seguimos depois.

Porque há datas que não nos pertencem mais como antes.
Mas ainda podem nos ensinar como existir com mais verdade.

Sigamos!!

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