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Mostrando postagens de dezembro, 2025

O altar, o sonho e a necessidade mítica da cultura

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Há algo na cultura que antecede a forma, a lei e a razão. Algo que não nasce da escassez, mas do excesso. Antes de qualquer organização social, antes da técnica e do discurso sistemático, o humano parece ter intuído a necessidade de um lugar — um ponto de suspensão — onde a vida pudesse ser colocada diante de si mesma. Esse lugar é o altar. Não apenas o altar religioso, mas o altar simbólico: o espaço onde o mundo é interrompido para que um sonho possa ser acolhido. Essa necessidade não é abstrata. Ela é quase orgânica, intestinal. Como se a consciência, ao se descobrir lançada num mundo instável e finito, precisasse erguer um eixo em torno do qual o sentido pudesse circular. O altar não é, em sua origem, um instrumento de poder; é um dispositivo de cuidado. Ali, algo frágil é depositado — uma imagem, uma esperança, um temor — para não se perder no fluxo indiferenciado da existência. O que se coloca no altar é sempre um sonho. Não um devaneio qualquer, mas aquele sonho que insiste,...

Tránsito Soto, Márcio Alvino e a permanente exclusão

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Há personagens que não pedem licença à história; operam nela. Tránsito Soto, em A Casa dos Espíritos , é uma dessas figuras. Ela não governa, não legisla, não moraliza. Conhece os atalhos — e por isso atravessa. Sua força nasce do colapso: quanto mais frágil o centro, mais indispensável a margem que resolve. Esse é o ponto de contato com um tipo de poder contemporâneo que, no Brasil, se consolidou após 2016: o poder que administra a exclusão em vez de superá-la. No filme, quando a ordem formal entra em crise, é Tránsito quem garante passagem. Não por virtude abstrata, mas por inteligência prática. Ela é a ética da sobrevivência em um sistema injusto. A narrativa não a romantiza: expõe o paradoxo. Sua eficácia depende da permanência da injustiça. Se a estrutura mudasse, o seu lugar deixaria de existir. Transponha o mecanismo para o presente. Em muitas cidades, APAE(s) e Santas Casas tornaram-se casas institucionais da carência: salvam vidas, acolhem famílias, sustentam o cotidiano — e, ...

Padre Júlio: agonia, angústia e liberdade

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Há acontecimentos que não se encerram no fato, na notícia ou nas conversas. Eles permanecem vibrando, como um ruído baixo que atravessa o cotidiano e altera o modo como respiramos. Nos cutuca e nos desafia. O ataque sofrido por Padre Júlio Lancellotti pertence a essa ordem. Não é apenas um episódio político, nem apenas uma crise eclesiástica vergonhosa. É um acontecimento que nos alcança por dentro, produzindo agonia e angústia, deslocando o eixo do que julgávamos seguro. A agonia surge primeiro. Ela é quase física. Um aperto silencioso diante da constatação de que alguém que encarna, com rara coerência, o núcleo ético do Evangelho — a presença junto aos pobres, a defesa incondicional da dignidade humana, a recusa da exclusão — torna-se alvo de perseguição pública. A agonia nasce quando percebemos que aquilo que deveria proteger — a cidade, a política, a própria Igreja — se move, por ação ou omissão, contra quem testemunha o essencial. É a sensação de sufocamento que emerge quando o ...