O mundo ainda tá aberto! 2026 como tempo de escolha.
Entramos em 2026 sem aquela sensação clara de “virada de página”. Não teve sirene, não teve queda geral, não teve milagre anunciando um novo tempo. O que teve foi algo mais traiçoeiro: o ritmo do rolê mudou, mas a gente quase não percebeu. As coisas seguem acontecendo, só que a gente já não se espanta. O que antes chocava virou rotina. O que parecia absurdo passou a ser administrável. A crise deixou de ser exceção e virou o pano de fundo da vida.
Esse
é sempre um momento perigoso na história. Não quando tudo quebra de uma vez,
mas quando tudo continua de pé, mesmo já estando gasto por dentro.
Quando a normalidade vira um acordo silencioso com a deterioração. Quando a
gente para de se perguntar se esse mundo ainda faz sentido e passa só a tentar
“dar conta”, tocar o dia, pagar as contas, sobreviver.
É
exatamente aí que estamos.
A
tecnologia avança rápido, afiada, precisa. Sistemas calculam, cruzam dados,
preveem comportamentos, automatizam decisões. A inteligência artificial, os
supercomputadores, a automação do pensamento e a economia de dados já não são
coisa de filme ou de laboratório — viraram estrutura invisível do cotidiano.
A gente trabalha, aprende, se informa e decide mediado por sistemas que quase
ninguém entende direito e que ninguém escolheu de verdade governar.
Nunca
soubemos tanto. Nunca tivemos tanto poder de cálculo. E, ainda assim, parece
faltar algo básico: atenção ao histórico da nossa própria existência.
Falta ligar o que estamos fazendo agora com o que viemos sendo, com o que
fomos, com o que queremos continuar sendo como sociedade.
O
problema não é a tecnologia em si. Ferramentas sempre mudaram a história. O
problema é o descompasso entre a velocidade das máquinas e a maturidade da
nossa conversa coletiva. A gente acelera sem combinar o rumo. E quando o
sentido não acompanha, o vazio não fica neutro. Ele vira medo, raiva,
ressentimento, busca por culpados.
É
nesse terreno que brotam os opressores enrustidos. Gente e discurso que
se apresentam como solução simples para um mundo complicado. Negação da
ciência, moralismo religioso, teorias da conspiração, ódio travestido de
tradição, preconceito disfarçado de opinião. Nada disso é coisa do passado. É
resposta torta a um presente que exige mais elaboração do que estamos
conseguindo fazer juntos.
Esses
discursos não querem orientar ninguém. Querem mandar. Não querem ampliar o
mundo. Querem estreitar, dividir, controlar. Quando isso acontece, a cultura
deixa de proteger a vida e passa a apertar o cerco. Sociedades que
aceitam isso acabam sufocando a si mesmas.
Esse
movimento aparece com força na política. As democracias não acabaram de vez,
mas estão cansadas. Continuam funcionando, têm eleição, têm lei, têm
rito. Só que, para muita gente, já não entregam proteção concreta nem horizonte
de futuro. Quando a política não explica a vida real, o ressentimento vira
professor. Quando a instituição não cuida do cotidiano, a promessa de ordem
simples vira tentação.
O
autoritarismo de hoje não chega batendo a porta. Ele chega oferecendo conforto
emocional, culpados fáceis e soluções duras. Não fecha tudo de uma vez. Vai
corroendo por dentro, normalizando a exceção, tratando a violência
simbólica como piada, transformando conflito em espetáculo. O risco não é um
golpe clássico. É viver num ambiente onde a brutalidade vira método e ninguém
mais estranha.
Talvez
o estrago mais profundo desse tempo seja a quebra do comum. A perda
daquele espaço mínimo onde pessoas diferentes conseguem conviver sem se
tratarem como inimigas. Onde discordar não significa destruir. Onde o outro não
é ameaça automática.
Quando
tudo vira bolha, tribo, identidade rígida, algoritmo, o comum evapora. A
conversa vira briga. A política vira guerra cultural. O sofrimento do outro
perde importância. E sociedades que perdem o comum começam a se comer por
dentro, gastando energia em conflitos internos enquanto os problemas reais
seguem intactos.
A
história mostra isso com clareza. Povos não se destroem por falta de
inteligência. Se destroem quando perdem a capacidade de olhar para si mesmos
com honestidade, de revisar seus mitos, de escutar a realidade concreta e
de cuidar do laço que os mantém juntos. Esse padrão de autodestruição não é
destino. É um jeito errado de organizar medo, poder e identidade.
Ele
aparece sempre que o medo toma o lugar do cuidado, quando a identidade vira
mais importante que o comum, quando o mito cala a escuta, quando a técnica vira
fim em si mesma e quando o poder se descola da responsabilidade.
Hoje,
esse padrão volta com força, turbinado por tecnologia de ponta e afetos mal
resolvidos.
No
Brasil, tudo isso aparece concentrado. Polarização, negacionismo, desigualdade,
avanço tecnológico sem mediação, disputa feroz de narrativas. Mostramos que
instituições podem resistir e que a democracia pode se defender. Mas seguimos
atravessados por precarização, violência simbólica diária e uma briga
permanente sobre o que é real, legítimo, aceitável.
O
Brasil não é atraso nem exceção. É campo de teste. Aqui, o risco da
autofagia social convive com uma potência enorme de reinvenção, mistura
cultural e criatividade popular. Nada está decidido. O desfecho depende de
projeto, escuta e cuidado.
Por
isso este texto não traz receita pronta. Ele oferece critérios para não se
perder. Pensar antes de acelerar. Colocar o cuidado no centro da política.
Reconstruir o comum no dia a dia. Não deixar tecnologia virar caixa-preta de
poder. Tratar a diferença como condição de sobrevivência, não como ameaça.
2026
não vai ser decidido por um grande evento. Vai ser decidido por mil escolhas
pequenas, feitas todo dia, nos territórios, nas escolas, nas instituições,
nas relações, no jeito como falamos uns com os outros.
Este
manifesto não anuncia o fim do mundo. Ele diz algo mais exigente: o mundo
ainda está em aberto, e isso dá trabalho. Civilizações não caem quando
erram. Caem quando desistem de aprender. A gente ainda não desistiu.
Cuidar
hoje é radical. Pensar junto é resistência. Refazer o comum é tarefa histórica.
Que
este texto circule como convite à pausa num mundo acelerado — e como ajuda
concreta para escolher a vida em meio à complexidade.
Sigamos!

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