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Suzano entre Feridas e Futuro: o que revelam Raul Brasil, a violência e a Várzea do Tietê

da tragédia da Raul Brasil ao aterro clandestino na Várzea: por que Suzano se tornou símbolo de uma crise que ultrapassa a cidade e atinge a própria ideia de civilização. Suzano vive um ciclo contínuo de golpes contra a vida. Desde o massacre da Escola Raul Brasil, em 2019, a cidade carregou uma das maiores tragédias de sua história sem que o poder público estruturasse políticas reais de reparação, cuidado ou prevenção. O trauma coletivo, não elaborado, tornou-se parte da paisagem social — e, como consequência, vemos crescer a violência, o medo e a sensação de abandono. Nos últimos anos, outro sintoma grave se instalou: a destruição da APA do Rio Tietê no Miguel Badra, fruto de operações de aterro e especulação que avançam sobre o território com a conivência do Estado. Quando uma cidade não protege suas crianças e também não protege seu rio, ela revela que algo fundamental se rompeu: o compromisso com o comum. O aumento recente dos homicídios no Alto Tietê — como mostram os dados d...

O Vale e o Corpo

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“Quando uma cidade repudia o direito de todos aprenderem juntos, não é o decreto que está em julgamento —é a própria ideia de humanidade.”— Reflexão sobre o voto da Câmara de Mogi das Cruzes, 2025 Há algo de podre no gesto de quem, em nome da pureza, ergue muros para esconder a humanidade. Chamam de ordem, chamam de decência, chamam de bem — mas o nome verdadeiro disso é medo. Medo daquilo que nos lembra que somos frágeis. Medo do corpo que não se encaixa. Medo da dor que não escolhe classe, credo nem cor. O capacitismo é essa arquitetura do medo. É o velho instinto de banir o diferente — o mesmo que já construiu leprosários, senzalas, manicômios, asilos e prisões. É o hábito de olhar o outro e ver nele o erro, o defeito, o castigo. Mas o erro nunca esteve no corpo. O erro está na cultura que transforma diferença em falha e vulnerabilidade em vergonha.   Cristãos de fachada Vivemos uma era em que muitos gritam o nome de Deus, mas esquecem o gesto do Cristo. Pregam dos pú...

Os Três Vértices da Crise Civilizacional: Capitalismo, Imperialismo e Ignorância

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“A desumanização não é apenas o resultado da exploração, mas da incapacidade de compreender o outro como sujeito.” — Paulo Freire I. O Capitalismo em Ruína e a Política do Medo O capitalismo, em seu estágio avançado, perdeu a capacidade de oferecer sentido. Ele sobrevive através do medo e da precariedade, convertendo o trabalho em sobrevivência e o desejo em mercadoria. Quando a vida se reduz a índices de produtividade, o ser humano passa a buscar, desesperadamente, uma forma de pertencimento — e é nesse vazio que a extrema-direita encontra solo fértil. O neoliberalismo, ao dissolver vínculos e destruir o comum, produz não apenas pobreza material, mas também desagregação moral e simbólica. A insegurança torna-se o cimento de novas lealdades autoritárias. A promessa fascista de “ordem” e “identidade” é, na verdade, a nostalgia de um mundo que nunca existiu — mas que dá forma ao medo contemporâneo. II. O Imperialismo da Miséria e a Colonização do Imaginário O imperialismo atual ...

Entre o Crime e o Estado: o Humano como Fronteira da Segurança Pública

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“Não há paz onde o humano é usado como instrumento — seja pelo crime, seja pelo Estado.” A chacina ocorrida no Rio de Janeiro, mais uma vez, impõe ao país a tarefa de olhar para si. A justificativa do combate ao crime organizado — legítima e necessária — não pode servir como licença para o extermínio. A morte, quando se repete como política, deixa de ser exceção: transforma-se em método. E quando o método é a morte, o Estado deixa de proteger a vida para administrar o medo.  Desde o massacre do Carandiru, em 1992, até as operações recentes em favelas e periferias, o padrão é o mesmo: a violência do crime é respondida pela violência do Estado, e o resultado é a destruição do humano nos dois lados. O criminoso perde sua condição de pessoa; o policial perde a de cidadão.  No meio, uma sociedade inteira assiste, atônita, à naturalização do horror. A defesa da vida exige que sejamos capazes de distinguir combate de vingança . Combater o crime organizado é enfrentar uma estrutura c...

O Sétimo Dia da Humanidade

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Por uma nova respiração do tempo Por 𝓜ₕ ᵤ ₘₐₙₒ Há séculos trabalhamos. Mas poucos perceberam que, nesse ato contínuo de produzir, também fomos nos perdendo. A cada giro da máquina, a cada minuto cronometrado, a cada meta atingida, um pouco do humano se apaga — e o tempo, esse espelho do ser, vai se tornando uma parede. O relógio, que nasceu para medir a vida, passou a medi-la contra nós. O 6×1 é o nome técnico dessa parede. Seis dias para entregar o corpo, um dia para devolvê-lo à consciência. Mas esse um dia nunca chega inteiro. O descanso não é repouso: é anestesia. É o instante em que o corpo para, mas o espírito ainda trabalha — pensando nas contas, nas metas, no retorno, no “amanhã cedo”. O sétimo dia virou mito. E o mito virou ausência. Mas há um segredo nas sombras: o humano não se salva por decreto, nem por escala — se salva quando retoma o seu ritmo . A verdadeira revolução do trabalho não está nas horas que se cortam, mas no sentido que se restitui . O fim do 6×1 nã...

O Mercado como Nova Religião do Estado

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“Todo poder que se diz técnico, deseja ser incontestável.” — " A Geometria dos Saberes " Há algo de profundamente religioso na linguagem econômica de nosso tempo. Os ministros e presidentes de bancos, os porta-vozes de federações industriais e as agências de rating ocupam o espaço simbólico que, outrora, cabia aos sacerdotes do destino. A liturgia mudou, mas o rito permanece: números substituíram oráculos; relatórios tomaram o lugar dos evangelhos. A economia tornou-se o novo templo do Estado — e o mercado, sua divindade invisível. As manchetes sobre crescimento, comércio exterior, política tributária e relações diplomáticas não apenas informam: elas ordenam o mundo. Cada dado publicado — inflação, superávit, taxa de juros — atua como mandamento moral. “É preciso ajustar”, “é necessário conter”, “é fundamental recuperar a confiança”. Palavras técnicas, porém carregadas de fé. O dogma é claro: o equilíbrio fiscal é virtude; o déficit, pecado. A retórica da eficiência nã...

Entre a servidão e a justiça: o humano em travessia

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29ª Semana do Tempo Comum — Quinta-feira “Outrora oferecestes vossos membros como escravos da impureza; agora, colocai-os a serviço da justiça.” (Romanos 6,19) Há textos que não envelhecem porque falam menos do passado e mais do que se move dentro de nós. A carta de Paulo aos Romanos, lida nesta quinta-feira da 29ª Semana do Tempo Comum, é um desses lampejos em que a palavra antiga acende o presente. Ela nos convida a olhar para dentro — e reconhecer que toda vida humana se desenrola entre dois polos: o da servidão e o da liberdade. Mas Paulo, aqui, não fala da escravidão política, nem da liberdade civil. Fala do território mais íntimo — aquele onde o corpo e a consciência se encontram. “Outrora oferecestes vossos membros à impureza”, escreve ele, usando o corpo como metáfora da vontade. Nossos gestos, impulsos e palavras são sementes: podem gerar morte ou vida, desordem ou justiça. O texto tem uma lucidez rara. Não se trata de trocar um jugo por outro, mas de compreender que ...