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Uma sabedoria tardia, um corpo vivo.

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O corpo envelhece e com ele chegam as dores, persistentes e sempre novas, como se cada manhã fosse um recomeço incômodo. A velhice nos ensina que a dor não se apaga, mas se transforma em professora: é preciso reaprender a andar, reaprender a respirar, reaprender a existir. Se a juventude serviu para aprender e a maturidade para fazer, a velhice se revela como o tempo de reaprender tudo de novo e, talvez, fazer melhor — ainda que reste pouco tempo. Mas esse movimento não é apenas biológico. É também histórico e cosmológico. Assim como o corpo se regenera em suas células, o universo se refaz em estrelas que morrem e renascem, e as culturas humanas se reinventam a partir de seus próprios erros. O tempo humano não está separado do tempo do cosmos. Carregamos nos ossos o cálcio das estrelas, nas sinapses a memória da espécie, nos símbolos as ilusões e as verdades de milênios. Não podemos, porém, falar apenas de sabedoria como se fosse conquista serena. A história nos mostra erros, eng...

Entre o vazio e a Justiça Social.

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Vivemos uma época em que os velhos fundamentos se dissolvem. As promessas de eternidade, os dogmas da verdade absoluta e os falsos profetas da ordem já não sustentam a vida. O niilismo nos revela isso sem disfarces: nada está garantido . Esse vazio não é derrota. É a mais radical das ousadias: olhar de frente o nada e nele encontrar a possibilidade de recriar o mundo. Se o céu está vazio, o chão está vivo. É na matéria histórica — no corpo, no trabalho, na luta — que se ergue o espaço da existência humana. O materialismo nos recorda que não somos espectros perdidos no cosmos: somos seres concretos, tecedores de história. O que não podemos experienciar no infinito do universo, podemos transformar no finito da terra, da cidade, da comunidade. A radicalidade da matéria nos convoca a agir aqui e agora, não em outro lugar. Do niilismo nasce uma responsabilidade: já que não existe sentido dado, somos nós que devemos criar. A justiça social não é presente dos céus, mas conquista human...

Michel Siffre: O homem que desceu à escuridão para medir o tempo

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Em 1972, o cientista e espeleólogo francês Michel Siffre decidiu repetir — de forma ainda mais radical — uma experiência que já havia conduzido dez anos antes. Ele se trancou numa caverna a cerca de 440 pés de profundidade, isolado por 180 dias, sem luz solar, sem relógio e sem contato humano direto. O objetivo não era resistência física, mas investigação: compreender como o corpo e a mente regulam a percepção do tempo na ausência de qualquer referência externa. Siffre, formado em geologia e apaixonado pela psicologia do tempo, acreditava que a chave para entender aspectos profundos da nossa natureza estava na relação entre o relógio biológico e o ambiente. Ao eliminar os marcadores habituais — nascer e pôr do sol, horários de refeições, vozes, sons da vida urbana — ele pretendia observar o funcionamento “nu” do ciclo humano de sono e vigília. O método e a experiência Nos primeiros dias, tentou manter uma rotina guiando-se apenas por sinais internos, como fome e sono. Mas, sem lu...

A saúde que começa pela boca: um papo com quem cuida da saúde bucal..

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A saúde é um patrimônio coletivo. Vai além do bem-estar individual: constitui-se na qualidade das relações que atravessam corpos, territórios e tempos. Pessoas saudáveis constroem comunidades saudáveis. E comunidades saudáveis são aquelas que cuidam umas das outras, em todas as suas dimensões — do invisível ao evidente, do íntimo ao estrutural. Pensar a integralidade da saúde é reconhecer que ela habita cada célula, cada gesto e cada vínculo. Ela pulsa na circulação da água, na qualidade do ar, no silêncio das madrugadas e nas cozinhas das casas populares. Está no alimento que se escolhe — ou que falta — e nas pequenas dores que se acumulam sem escuta. Uma abordagem verdadeiramente popular da saúde pública precisa, portanto, partir da vida concreta e de suas encruzilhadas históricas. É preciso recuperar uma percepção integral da saúde, que nos permita não apenas identificar desafios, mas também construir prioridades compartilhadas, qualificar a gestão e tornar o orçamento público uma...

Graça, humana ou divina: entre a luta e o impossível!

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“Se a graça é divina, ótimo. Ela é abundante e permanente se divino for. Pois a vida é permanente, o mundo é permanente, o universo é também, pois aqui na Terra tem água, tem ar, tem gente, tem consciência…” …Mas tem a graça, que pode ser divina, a graça que pode e deve ser abundante para ter graça na vida e construir a consciência, construir o entendimento — com a graça.” Pois tudo passa. A graça permanece. Pode até ser divina. Mas humana — sei que é.” Em que lugar da história habita a graça? Em que corpo ela se encarna? E, mais ainda, como reconhecer sua presença — não como um dom celestial, mas como uma força concreta que atravessa a vida dos povos em luta? Vivemos num tempo em que o mercado sequestra até a linguagem do sagrado, transformando a espiritualidade em produto, o cuidado em algoritmo e o gesto solidário em moeda de troca. Mas mesmo diante da avalanche de coisificação da vida, ainda há algo que escapa. Há algo que insiste. Algo que resiste. Algo que, talv...

A fala como instrumento de luta e o silêncio como gesto de poder

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No campo da política, especialmente na política feita pelo povo e para o povo, a fala é uma das principais ferramentas de transformação . É por meio da palavra que denunciamos injustiças, que construímos sentidos coletivos, que organizamos a ação e fortalecemos a luta. A fala — quando está conectada à vivência, à consciência e ao projeto político — não é apenas expressão individual . Ela se transforma em ferramenta coletiva, instrumento de disputa simbólica e ponte para a construção de alianças. É por isso que, no campo popular, a escuta e a fala andam juntas . Quem fala precisa saber de onde fala. Quem escuta, precisa reconhecer o valor de cada voz. E não são todas as vozes que têm o mesmo peso na luta por justiça social. Quando uma pessoa negra, indígena, periférica ou uma mulher assume o protagonismo político, ela carrega o poder de falar a partir da dor, da experiência concreta e da resistência cotidiana . Esse é o chamado “lugar de fala”. Não se trata de privilégio, mas de legitim...

O Ataque ao Pix é um ataque à soberania Tecnológica Brasileira

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No dia 15 de julho de 2025, o governo dos Estados Unidos, sob comando de Donald Trump, anunciou a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil. O motivo alegado? Práticas supostamente desleais. O alvo implícito? O Pix, sistema de pagamento eletrônico gratuito, instantâneo e universalmente adotado no Brasil. Essa movimentação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) escancara um conflito de interesses que vai muito além do comércio internacional: trata-se de uma ofensiva política e econômica contra a autonomia tecnológica brasileira. O que está em jogo: a disputa por infraestrutura de poder O Pix, com mais de 175 milhões de usuários e responsável por R$ 2,6 trilhões em transações só em abril de 2025, se consolidou como uma infraestrutura nacional essencial, usada por pessoas físicas, pequenas empresas e serviços públicos. É um instrumento de democratização do acesso financeiro — especialmente para os setores populares — que rompe com a lógica de dependênci...