Mundanidade e Nova Episteme: entre o chão e o código
Tem gente que pensa que pra falar de tecnologia, inteligência artificial ou soberania digital, a gente precisa deixar os pés fora do chão.
Que esse é um assunto pra especialistas, pra técnicos, pra gente de jaleco e MBA.
Aqui no ppplebeu, a gente discorda.
A gente insiste que é justamente no chão da vida real, na experiência comum, na mundanidade — que mora a verdadeira força pra reconstruir o futuro.
Porque essa tal de nova episteme que estamos desenhando aos poucos por aqui, entre um texto e outro, entre uma conversa e uma provocação, não é uma episteme do céu das ideias.
É uma episteme da rua, do campo, da fábrica, da quebrada, da escola pública, da feira livre, da comunidade de software e da comunidade de fé.
Ela não se afasta da mundanidade.
Ela nasce dela.
É com a vivência concreta — aquela que sente no corpo o preço da passagem, a fila do SUS, o medo da demissão e o desmonte da escola — que se forma o olhar atento, crítico e criativo capaz de questionar também a lógica dos algoritmos, a arquitetura das plataformas, a neutralidade das redes e a linguagem das máquinas.
A nova episteme que propomos aqui é:
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Tão mundana quanto um café coado no coador de pano.
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Tão política quanto um sarau na viela.
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Tão científica quanto um experimento popular de organização coletiva.
Porque, no fundo, não há verdadeira soberania tecnológica sem soberania cultural, afetiva, existencial.
E se as máquinas estão invadindo o nosso cotidiano, a nossa resposta não será o medo, nem a submissão.
Será a ousadia de pensar junto, sentir junto, construir junto — com o rigor dos saberes e a leveza da irreverência.
É isso que estamos chamando de episteme tecnossocial plebeia.
Uma forma de pensar e agir que não abre mão do chão, mas também não tem medo do futuro.
Que reconhece a potência do digital, mas se recusa a abandonar o humano.
Afinal, como diria Mandela, punho erguido é sinal de firmeza.
E aqui no ppplebeu, a gente escreve com os punhos cerrados e o coração aberto.
Atualização: o tempo da tecnologia não espera
Enquanto escrevemos e refletimos aqui do chão da vida, lá do alto dos data centers, a roda do capital gira numa velocidade alucinante.
Segundo Jensen Huang, CEO da NVIDIA, seus chips de IA estão evoluindo tão rápido que já quebraram a lógica da antiga Lei de Moore — aquela que previa que o poder computacional dobraria a cada dois anos.
Agora, segundo ele, a IA precisa da sua própria Lei de Moore.
E os dados são absurdos: um novo chip como o GB200 NVL72 é até 40 vezes mais rápido que seu antecessor. A computação foi milhões de vezes barateada em 20 anos.¹
O que isso revela?
Que o avanço tecnológico está descolado da capacidade humana e social de absorvê-lo com consciência e equidade.
E que, se não formos protagonistas, essa velocidade será usada contra nós — automatizando desigualdades, concentrando poder, minando liberdades.
Por isso, reafirmamos: ou construímos uma nova episteme a partir da mundanidade, ou seremos passageiros no trem desgovernado da tecnocracia corporativa.
📚 Referência adicional:
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Mota, PH. NVIDIA acabou de quebrar a equação que previa o futuro da tecnologia, segundo seu CEO – Terra, 30 mar 2025. Link para a matéria
ppplebeu
Onde a técnica encontra a vida. E a vida não se curva.
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