29 de jan de 2012

Viver e não ter a vergonha de ser feliz

De todas as coisa da vida. Viver a liberdade é, para mim, o maior desafio. Por conta que a liberdade, percebi pela experiência, só é possível enquanto exercício coletivo. Pode parecer um paradoxo, em um primeiro momento, mas vejamos o seguinte:

Como posso viver meu sonho sossegado se ao meu lado existe um montão de companheiros sendo injustiçados. Veja o caso das famílias do bairro Pinheirinho em São José dos Campos-SP, além de inúmeras pessoas que dia a dia perdem seu direito ao trabalho, e outros que possuem suas atividades políticas reduzidas pela ignorância de pequenas minorias que se encastelam em direções partidárias, e querem paroquializar a luta política, como é o caso de Suzano-SP, onde um grupo de picaretas, que se demonstram na fala, como Partido dos Trabalhadores, mas na verdade possuem como slogam de sua atitude, o objetivo de suzanificar a política e o governo naquela cidade.

Mesmo pensamento serve para os "picaretas" majoritários da direção partidária do PT de Poá, que em pequena minoria social, se aclamam "Poá para os poaenses", e na verdade são lambe botas de um sistema que não valoriza a força do trabalho.

Sei que este raciocínio é complexo e deveras abstrato, mas façamos um esforço e simplificá-lo-emos:

Para ser livre, devemos ter algumas certezas em nossa vida. A primeira delas é poder enfrentar o amanhã pela nossa própria capacidade proletária. Isto significa que nossa liberdade está ligada ao nosso labor e a nossa capacidade de nos socializarmos pela força de nosso trabalho. Ter claro que nosso futuro, e de nossos companheiros, depende somente do esforço conquistado pelas nossas próprias mãos. Este é um pressuposto importante para a liberdade.

Neste sentido, quero conclamar nossa juventude, cavaleiros do século XXI, que se esforcem para apropriarem-se das tecnologias e das lógicas do sistema de produção de nosso tempo. Se querem ser livres, organizem-se em coletivos que valorizem a vida e tenham a capacidade de dominar os processos do mundo do trabalho de nosso tempo.

Por mais que evoluamos, tenham todos a certeza, algumas coisas permanecem, e estas devemos ter em conta em nossa "bagagem" durante a "viagem" e na "aventura" de nossa história individual e coletiva.

Trabalho, terra, teto, alimentação, atmosfera para respirar, água para beber, ciência para conhecer e produzir sempre serão fundamentais em nossa vida.

Independente do idioma que utilizamos, do lugar onde nascemos, da cultura que nos permite existir enquanto pessoa humana, todos estes lugares e contextos, são ancoras que nos colocam o desafio de viver a liberdade, profundamente até, mas sempre, coletivamente. Por isto não devemos temer a vergonha de viver plenamente nossas comunidades e, dentro delas, não ter a vergonha de ser feliz.

24 de jan de 2012

Dirigente petista ataca negociação com Kassab


Dirigente petista ataca negociação com Kassab

O Estado de S. Paulo - 24/01/2012

Depois de líderes de movimentos sociais do PT repudiarem uma eventual aliança com o PSD e militantes históricos ameaçarem deixar a sigla caso um acordo prospere, agora é o secretário nacional de movimentos populares do partido, Renato Simões, quem rejeita a ideia.

Em consonância com a base petista, ele vê atitudes "oportunistas" do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, na aproximação com o governo federal e nas conversas que abriu com Lula.

"O PT não pode ficar refém de um partido que mantém relação oportunista com o governo federal. O PSD não tem base programática nem compromisso efetivo com a defesa do governo", afirma. Simões avalia que Kassab está usando o PT para "se valorizar com os tucanos". "Basta o Serra voltar atrás e assoviar que o Kassab vai correndo apoiá-lo. Basta o PSDB abrir mão de candidatura e apoiar o Afif que o Kassab nos deixa na rua da amargura."

Nota. A Militância Socialista, corrente petista coordenada por Simões, emitiu uma nota na qual define o PSD como "uma reconfiguração da direita partidária que esgotou seu projeto no DEM e em outros partidos de oposição". A corrente condena qualquer acordo com o partido presidido por Kassab nas eleições municipais deste ano.

Simões rebate as manifestações de colegas de partido que defendem a tese segundo a qual, ao se aproximar do PT, Kassab estaria aceitando o programa do partido. "O Kassab foi a negação do programa do PT durante o seu governo. Ele desmantelou as principais políticas do governo da Marta em áreas como moradia, saúde e educação. Ele pisoteou o programa do PT."

Ele afirma não ter encontrado nenhum líder de movimento popular dentro do PT que defenda a aliança com o PSD. "Não conheço uma liderança petista de movimento social animada com um possível apoio do Kassab", diz. Simões avalia como negativo o impacto eleitoral da eventual aliança: "Compromete não só a situação em São Paulo como nacionalmente. Associar a imagem do PT à do Kassab em nada ajuda na campanha". 

FERNANDO GALLO e ROLDÃO ARRUDA

20 de jan de 2012

BIG BROTHER BRASIL

por : Antonio Barreto,
Cordelista natural de Santa Bárbara-BA,
residente em Salvador.
Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.


Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

FIM

Salvador, 16 de janeiro de 2010.

Grande abraço

18 de jan de 2012

II Encontro de Blogueiros e Redes Sociais do Alto Tietê

A Prefeitura de Suzano através da Secretaria de Participação Popular, Secretaria de Cultura e Secretaria de Desenvolvimento Econômico Trabalho Negócios e Turismo irá acolher no dia 14 de abril, das 09h00 às 18h00 o II Encontro de Blogueiros e Redes Sociais do Alto Tietê.

Em reunião na Secretaria de Participação Popular e Descentralização, com a presença de Jair Pedrosa e Rosenil Barros Orfão, foram encaminhados os temas decididos na reunião do coletivo de blogueiros que ocorreu em 07jan2012 na cidade de Poá.

O secretário Rosenil, que também é blogueiro deixou à disposição da coordenação do movimento toda a estrutura necessária para que o evento possa ser um grande sucesso.

"Faz parte da estratégia da secretaria abrir espaços para os movimentos sociais, e receber o encontro de blogueiros e redes sociais na cidade de Suzano é uma grande honra e alegria, afirma Rosenil."

As informações e a dinâmica do encontro está sendo organizada de modo coletivo pelo movimento, para acompanhar a evolução dos trabalhos o endereço é www.blogueirosdoaltotietê.blogspot.com

O Local do evento será no Teatro Armando Ré, rua General Francisco Glicério, 1354, Centro, Suzano-SP.

9 de jan de 2012

A importância do verbo na luta política.

nossas cidades - nossa linguagem
Quando na arena da luta política, tudo que fazemos e falamos, dependendo de quem dele se apropria, terá sempre mais que um significado. É da natureza das atividades humanas a pluralidade. Quando no interior da luta política, o contorno das diferenças e das interpretações são mais carregados.

Mas de qualquer modo, pela nossa própria grandeza humana e responsabilidade militante - de todos nós-, é necessário criar espaços para o máximo de convergência, sob pena de avançarmos menos ou retrocedermos.

Neste sentido coloco na integra um texto organizado por Carlos Martinho Rost, do curso "Pausa para a Filosofia", para nos ajudar a compreender melhor certos fenômenos da política e também fortalecer, necessariamente, nossa militância.



A importância da linguagem
Na abertura da sua obra Política, Aristóteles afirma que somente o homem é um “animal político”, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dela, somente os homens são capazes.
Segue a mesma linha o raciocínio de Rousseau no primeiro capítulo do Ensaio sobre a origem das línguas:

A palavra distingue os homens dos animais; a linguagem distingue as nações entre si. Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado.

Escrevendo sobre a teoria da linguagem, o lingüista Hjelmslev afirma que “a linguagem é inseparável do homem, segue-o em todos os seus atos”, sendo “o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da sociedade humana.”
Prosseguindo em sua apreciação sobre a importância da linguagem, Rousseau considera que a linguagem nasce de uma profunda necessidade de comunicação:

Desde que um homem foi reconhecido por outro como um ser sensível, pensante e semelhante a si próprio, o desejo e a necessidade de comunicar-lhe seus sentimentos e pensamentos fizeram-no buscar meios para isso.

Gestos e vozes, na busca da expressão e da comunicação, fizeram surgir a linguagem.
Por seu turno, Hjelmslev afirma que a linguagem é “o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta contra a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador.”

A linguagem, diz ele, está sempre à nossa volta, sempre pronta a envolver nossos pensamentos e sentimentos, acompanhando-nos em toda a nossa vida. Ela não é um simples acompanhamento do pensamento, “mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento”, é “o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de geração a geração”.

A linguagem é, assim, a forma propriamente humana da comunicação, da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política, do pensamento e das artes.

No entanto, no diálogo Fedro, Platão dizia que a linguagem é um pharmakon. Esta palavra grega, que em português se traduz por poção, possui três sentidos principais: remédio, veneno e cosmético.
Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou um remédio para o conhecimento, pois, pelo diálogo e pela comunicação, conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Pode, porém, ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, fascinados, o que vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras ou falsas. Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras. A linguagem pode ser conhecimento-comunicação, mas também pode ser encantamento-sedução.

Essa mesma idéia da linguagem como possibilidade de comunicação-conhecimento e de dissimulação-desconhecimento aparece na Bíblia judaico-cristã, no mito da Torre de Babel [Gn 11.1-9], quando Deus lançou a confusão entre os homens, fazendo com que perdessem a língua comum e passassem a falar línguas diferentes, que impediam uma obra em comum, abrindo as portas para todos os desentendimentos e guerras. A pluralidade das línguas é explicada, na Escritura Sagrada, como punição porque os homens ousaram imaginar que poderiam construir uma torre que alcançasse o céu, isto é, ousaram imaginar que teriam um poder e um lugar semelhante ao da divindade. “Que sejam confundidos”, disse Deus.

A força da linguagem

Podemos avaliar a força da linguagem tomando como exemplo os mitos e as religiões.
A palavra grega mythos, como já vimos, significa narrativa e, portanto, linguagem. Trata-se da palavra que narra a origem dos deuses, do mundo, dos homens, das técnicas (o fogo, a agricultura, a caça, a pesca, o artesanato, a guerra) e da vida do grupo social ou da comunidade. Pronunciados em momentos especiais – os momentos sagrados ou de relação com o sagrado -, os mitos são mais do que uma simples narrativa; são a maneira pela qual, através das palavras, os seres humanos organizam a realidade e a interpretam.

O mito tem o poder de fazer com que as coisas sejam tais como são ditas ou pronunciadas. O melhor exemplo dessa força criadora da palavra mítica encontra-se na abertura da Gênese, na Bíblia judaico-cristã, em que Deus cria o mundo do nada, apenas usando a linguagem: “E Deus disse: faça-se!”, e foi feito. Porque Ele disse, foi feito. A palavra divina é criadora.

Também vemos a força realizadora ou concretizadora da linguagem nas liturgias religiosas. Por exemplo, na missa cristã, o celebrante, pronunciando as palavras “Este é o meu corpo” e “Este é o meu sangue”, realiza o mistério da Eucaristia, isto é, a encarnação de Deus no pão e no vinho. Também nos rituais indígenas e africanos, os deuses e heróis comparecem e se reúnem aos mortais quando invocados pelas palavras corretas, pronunciadas pelo celebrante.

A linguagem tem, assim, um poder encantatório, isto é, uma capacidade para reunir o sagrado e o profano, trazer os deuses e as forças cósmicas para o meio do mundo, ou, como acontece com os místicos em oração, tem o poder de levar os humanos até o interior do sagrado. Eis por que, em quase todas as religiões, existem profetas e oráculos, isto é, pessoas escolhidas pela divindade para transmitir mensagens divinas aos humanos.

Esse poder encantatório da linguagem aparece, por exemplo, quando vemos (ou lemos sobre) rituais de feitiçaria: a feiticeira ou o feiticeiro tem a força para fazer coisas acontecerem pelo simples fato de, em circunstâncias certas, pronunciarem determinadas palavras. É assim que, nas lendas sobre o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, os feiticeiros Merlin e Morgana decidem o destino das guerras, pronunciando palavras especiais dotadas de poder. Também nos contos infantis há palavras poderosas (“Abre-te, Sésamo!”, “Shazam!”) e encantatórias (“Abracadabra”). Essa dimensão maravilhosa da linguagem da infância é explorada de maneira belíssima pelo cineasta Federico Fellini no filme Oito e Meio, quando a personagem adulta pronuncia as palavras “Asa Nisa Nasa”, trazendo de volta o passado.

As palavras assumem o poder contrário também, isto é, criam tabus. Ou seja, há coisas que não podem ser ditas porque, se forem, não só trazem desgraças, como ainda desgraçam quem as pronunciar. As palavras-tabus existem nos contextos religiosos de várias sociedades (por exemplo, em muitas sociedades não se deve pronunciar a palavra “demônio” ou “diabo”, porque este aparece; em vez disso se diz “o cão”, “o demo”, “o tinhoso”). As palavras-tabus não existem apenas na esfera religiosa, mas também nos brinquedos infantis, quando certas palavras são proibidas a todos os membros do grupo, sob pena de punição para quem as pronunciar.

Existem, ainda, palavras-tabus na vida social, sob os efeitos da repressão dos costumes, sobretudo os que se referem a práticas sexuais. Assim, para certos grupos sociais de nossa sociedade e mesmo para nossa sociedade inteira, até os anos 60 do século passado, eram proibidas palavras como puta, homossexual, aborto, amante, masturbação, sexo oral, sexo anal, etc. Tais palavras eram pronunciadas em meios masculinos e em locais privados ou íntimos. Também palavras de cunho político tendem a tornar-se quase tabus: revolucionário, terrorista, guerrilheiro, socialista, comunista, etc.

O poder mágico-religioso da palavra aparece ainda num outro contexto: o do direito. Na origem, o direito não era um código de leis referentes à propriedade (de coisas ou bens, do corpo e da consciência), nem referentes à vida política (impostos, constituições, direitos sociais, civis, políticos), mas era um ato solene no qual o juiz pronunciava uma fórmula pela qual duas partes em conflito fariam a paz.

O direito era uma linguagem solene de fórmulas conhecidas pelo árbitro e reconhecidas pelas partes em litígio. Era o juramento pronunciado pelo juiz e acatado pelas partes. Donde as expressões “Dou minha palavra” ou “Ele deu sua palavra”, para indicar o juramento feito e a “palavra empenhada” ou “palavra de honra”. É por isso também que, até hoje, nos tribunais, se faz o(a) acusado(a) e as testemunhas responderem à pergunta: “Jura dizer a verdade, somente a verdade, nada além da verdade?”, dizendo: “Juro”. Razão pela qual o perjúrio – dizer o falso, sob juramento de dizer o verdadeiro – é considerado crime gravíssimo.

Nas sociedades menos complexas do que a nossa, isto é, nas sociedades que são comunidades, onde todos se conhecem pelo primeiro nome e se encontram todos os dias ou com freqüência, a palavra dada e empenhada é suficiente, pois, quando alguém dá sua palavra, dá sua vida, sua consciência, sua honra e assume um compromisso que só poderá ser desfeito com a morte ou com o acordo da outra parte. É por isso que, nos casamentos religiosos, em que os noivos fazem parte da comunidade, basta que digam solenemente ao celebrante “Aceito”, para que o casamento esteja concretizado.

Independentemente de acreditarmos ou não em palavras místicas, mágicas, encantatórias ou tabus, o importante é que existam, pois sua existência revela o poder que atribuímos à linguagem. Esse poder decorre do fato de que as palavras são núcleos, sínteses ou feixes de significações, símbolos e valores que determinam o modo como interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas e suas relações conosco.

A outra dimensão da linguagem

Para referir-se à palavra e à linguagem, os gregos possuíam duas palavras: mythos e logos. Diferentemente do mythos, logos é uma síntese de três palavras ou idéias: fala/palavra, pensamento/idéia e realidade/ser. Logos é a palavra racional do conhecimento do real. É discurso (ou seja, argumento e prova), pensamento (ou seja, raciocínio e demonstração) e realidade (ou seja, os nexos e ligações universais e necessários entre os seres).

É a palavra-pensamento compartilhada: diálogo; é a palavra-pensamento verdadeira: lógica; é a palavra-pensamento de alguma coisa: o “logia” que colocamos no final de palavras como cosmologia, mitologia, teologia, ontologia, biologia, psicologia, sociologia, antropologia, tecnologia, filologia, farmacologia, etc.

Do lado do logos desenvolve-se a linguagem como poder de conhecimento racional e as palavras, agora, são conceitos ou idéias, estando referidas ao pensamento, à razão e à verdade.
Essa dupla dimensão da linguagem (como mythos e logos) explica por que, na sociedade ocidental, podemos comunicar-nos e interpretar o mundo sempre em dois registros contrários e opostos: o da palavra solene, mágica, religiosa, artística, e o da palavra leiga, científica, técnica, puramente racional e conceitual. Não por acaso, muitos filósofos das ciências afirmam que uma ciência nasce ou um objeto se torna científico quando uma explicação que era religiosa, mágica, artística, mítica cede lugar a uma explicação conceitual, causal, metódica, demonstrativa, racional.

A origem da linguagem

Durante muito tempo a Filosofia preocupou-se em definir a origem e as causas da linguagem.
Uma primeira divergência sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem é natural aos homens (existe por natureza) ou é uma convenção social? Se a linguagem for natural, as palavras possuem um sentido próprio e necessário; se for convencional, são decisões consensuais da sociedade e, nesse caso, são arbitrárias, isto é, a sociedade poderia ter escolhido outras palavras para designar as coisas. Essa discussão levou, séculos mais tarde, à seguinte conclusão: a linguagem como capacidade de expressão dos seres humanos é natural, isto é, os humanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica, nervosa e cerebral que lhes permite expressarem-se pela palavra; mas as línguas são convencionais, isto é, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e políticas determinadas, ou, em outros termos, são fatos culturais. Uma vez constituída uma língua, ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidade interna, passando a funcionar como se fosse algo natural, isto é, como algo que possui suas leis e princípios próprios, independentes dos sujeitos falantes que a empregam.
Perguntar pela origem da linguagem levou a quatro tipos de respostas:

1. a linguagem nasce por imitação, isto é, os humanos imitam, pela voz, os sons da Natureza (dos animais, dos rios, das cascatas e dos mares, do trovão e do vulcão, dos ventos, etc.). A origem da linguagem seria, portanto, a onomatopéia ou imitação dos sons animais e naturais;

2. a linguagem nasce por imitação dos gestos, isto é, nasce como uma espécie de pantomima ou encenação, na qual o gesto indica um sentido. Pouco a pouco, o gesto passou a ser acompanhado de sons e estes se tornaram gradualmente palavras, substituindo os gestos;

3. a linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, a necessidade de abrigar-se e proteger-se, a necessidade de reunir-se em grupo para defender-se das intempéries, dos animais e de outros homens mais fortes levaram à criação de palavras, formando um vocabulário elementar e rudimentar, que, gradativamente, tornou-se mais complexo e transformou-se numa língua;

4. a linguagem nasce das emoções, particularmente do grito (medo, surpresa ou alegria), do choro (dor, medo, compaixão) e do riso (prazer, bem-estar, felicidade). Citando novamente Rousseau em seu Ensaio sobre a origem das línguas:

Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes… Eis por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas.

Assim, a linguagem, nascendo das paixões, foi primeiro linguagem figurada e por isso surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa muito depois; e as vogais nasceram antes das consoantes. Assim como a pintura nasceu antes da escrita, assim também os homens primeiro cantaram seus sentimentos e só muito depois exprimiram seus pensamentos.

Essas teorias não são excludentes. É muito possível que a linguagem tenha nascido de todas essas fontes ou modos de expressão, e os estudos de Psicologia Genética (isto é, da gênese da percepção, imaginação, memória, linguagem e inteligência nas crianças) mostra que uma criança se vale de todos esses meios para começar a exprimir-se. Uma linguagem se constitui quando passa dos meios de expressão aos de significação, ou quando passa do expressivo ao significativo. Um gesto ou um grito exprimem, por exemplo, medo; palavras, frases e enunciados significam o que é sentir medo, dão conteúdo ao medo.
O que é a linguagem?

A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para indicar coisas, para a comunicação entre pessoas e para a expressão de idéias, valores e sentimentos. Embora tão simples, essa definição da linguagem esconde problemas complicados com os quais os filósofos têm-se ocupado desde há muito tempo. Essa definição afirma que:

1. a linguagem é um sistema, isto é, uma totalidade estruturada, com princípios e leis próprios, sistema esse que pode ser conhecido;

2. a linguagem é um sistema de sinais ou de signos, isto é, os elementos que formam a totalidade lingüística são um tipo especial de objetos, os signos, ou objetos que indicam outros, designam outros ou representam outros. Por exemplo, a fumaça é um signo ou sinal de fogo, a cicatriz é signo ou sinal de uma ferida, manchas na pele de um determinado formato, tamanho e cor são signos de sarampo ou de catapora, etc. No caso da linguagem, os signos são palavras e os componentes das palavras (sons ou letras);

3. a linguagem indica coisas, isto é, os signos lingüísticos (as palavras) possuem uma função indicativa ou denotativa, pois como que apontam para as coisas que significam;

4. a linguagem tem uma função comunicativa, isto é, por meio das palavras entramos em relação com os outros, dialogamos, argumentamos, persuadimos, relatamos, discutimos, amamos e odiamos, ensinamos e aprendemos, etc.;

5. a linguagem exprime pensamentos, sentimentos e valores, isto é, possui uma função de conhecimento e de expressão, sendo neste caso conotativa, ou seja, uma mesma palavra pode exprimir sentidos ou significados diferentes, dependendo do sujeito que a emprega, do sujeito que a ouve e lê, das condições ou circunstâncias em que foi empregada ou do contexto em que é usada. Assim, por exemplo, a palavra água, se for usada por um professor numa aula de química, conotará o elemento químico que corresponde à fórmula H2O; se for empregada por um poeta, pode conotar rios, chuvas, lágrimas, mar, líquido, pureza, etc.; se for empregada por uma criança que chora pode estar indicando uma carência ou necessidade como a sede.

A definição nos diz, portanto, que a linguagem é um sistema de sinais com função indicativa, comunicativa, expressiva e conotativa.

No entanto, essa definição não nos diz várias coisas. Por exemplo, como a fala se forma em nós? Por que a linguagem pode indicar coisas externas e também exprimir idéias (internas ao pensamento)? Por que a linguagem pode ser diferente quando falada pelo cientista, pelo filósofo, pelo poeta ou pelo político? Como a linguagem pode ser fonte de engano, de mal-entendido, de controvérsia ou de mentira? O que se passa exatamente quando dialogamos com alguém? O que é escrever? E ler? Como podemos aprender uma outra língua?

Na resposta a várias dessas perguntas, vamos encontrar uma divergência que já encontramos quando estudamos a razão, a verdade, a percepção ou a imaginação, qual seja, a diferença entre empiristas e intelectualistas.

Empiristas e intelectualistas diante da linguagem

Para os empiristas, a linguagem é um conjunto de imagens corporais e mentais formadas por associação e repetição e que constituem imagens verbais (as palavras).

As imagens corporais são de dois tipos: motoras e sensoriais. As imagens motoras são as que adquirimos quando aprendemos a articular sons (falar) e letras (escrever), graças a mecanismos anatômicos e fisiológicos. As imagens sensoriais são as que adquirimos quando, graças aos nossos sentidos, à fisiologia de nosso sistema nervoso, sobretudo a de nosso cérebro, aprendemos a ouvir (compreender sons e vozes) e a reconhecer a grafia dos sons (ler). As imagens verbais são aprendidas por associação, em função da freqüência e repetição dos sinais externos que estimulam nossa capacidade motriz e sensorial. A palavra ou imagem verbal é uma síntese de imagens motoras e sensoriais armazenadas em nosso cérebro.

O que levou a essa concepção empirista da linguagem foi o estudo médico de “perturbações da linguagem”: a afasia (incapacidade para usar e compreender todas as palavras disponíveis na língua); a agrafia (incapacidade para escrever ou para escrever determinadas palavras); a surdez verbal (ouvir as palavras sem conseguir compreende-las) e a cegueira verbal (ler sem conseguir entender).

Os médicos que estudaram essas perturbações concluíram que estavam relacionadas com lesões no cérebro e que, portanto, a linguagem era um fenômeno físico (anatômico e fisiológico) do qual não temos consciência (desconhecemos suas causas), mas de cujos efeitos temos consciência, isto é, falamos, ouvimos, escrevemos, lemos e compreendemos o sentido das palavras. A linguagem seria uma soma de causas físicas e de efeitos psíquicos cujos átomos ou elementos seriam as imagens verbais associadas.

Os intelectualistas, porém, apresentam uma concepção muito diferente desta. Embora aceitem que a possibilidade para falar, ouvir, escrever e ler esteja em nosso corpo (anatomia e fisiologia) afirmam que a capacidade para a linguagem é um fato do pensamento ou de nossa consciência. A linguagem, dizem eles, é apenas a tradução auditiva, oral, gráfica ou visível de nosso pensamento e de nossos sentimentos. 

A linguagem é um instrumento do pensamento para exprimir conceitos e símbolos, para transmitir e comunicar idéias abstratas e valores. A palavra, dizem eles, é uma representação de um pensamento, de uma idéia ou de valores, sendo produzida pelo sujeito pensante que usa os sons e as letras com essa finalidade.

O pensamento puro seria silencioso ou mudo e formaria, para manifestar-se, as palavras. Duas provas poderiam confirmar essa concepção da linguagem: o fato de que o pensamento procura e inventa palavras; e o fato de que podemos aprender outras línguas, porque o sentido de duas palavras diferentes em duas línguas diferentes é o mesmo e tal sentido é a idéia formada pelo pensamento para representar ou indicar as coisas.

A grande prova dos intelectualistas contra os empiristas foi a história de Helen Keller. Nascida cega, surda e muda, Helen Keller aprendeu a usar a linguagem sem nunca ter visto as coisas e as palavras, sem nunca ter escutado ou emitido um som. Se a linguagem dependesse exclusivamente de mecanismos e disposições corporais, Helen Keller jamais teria chegado à linguagem.

Mas chegou. E chegou quando compreendeu a relação simbólica entre duas expressões diferentes: numa das mãos, sentia correr a água de uma torneira, enquanto a outra mão, na qual segurava uma agulha, guiada por sua professora, ia traçando a palavra água; quando se tornou capaz de compreender que uma mão traduzia o que a outra sentia, tornou-se capaz de usar a linguagem. Assim, a linguagem, longe de ser um mecanismo instintivo e biológico, seria um fato puro da inteligência, uma atividade intelectual simbólica e de compreensão, uma pura tradução de pensamentos.

As concepções empirista e intelectualista, apesar de suas divergências, possuem dois pontos em comum:

1. ambas consideram a linguagem como sendo fundamentalmente indicativa ou denotativa, isto é, os signos lingüísticos ou as palavras servem apenas para indicar coisas;

2. ambas consideram a linguagem como um instrumento de representação das coisas e das idéias, ou seja, as palavras têm apenas uma função ou um uso instrumental representativo.

Esses dois pontos de concordância fazem com que, para as duas correntes filosóficas, os aspectos conotativos ou a função conotativa da linguagem seja considerada algo perturbador e negativo. Em outros termos, o fato de que a comunicação verbal se realize com as palavras assumindo sentidos diferentes, dependendo de quem fala e ouve, escreve e lê, do contexto e das circunstâncias em que as enunciamos, é considerado perturbador porque, afinal, as coisas são sempre o que elas são e as idéias são sempre o que elas são, de modo que as palavras deveriam ter sempre um só e mesmo sentido para indicar claramente as coisas e representar claramente as idéias.

Por esse motivo, periodicamente, aparecem na Filosofia correntes filosóficas que se preocupam em “purificar” a linguagem para que ela sirva docilmente às representações conceituais. Tais correntes julgam que a linguagem perfeita para o pensamento é a das ciências e, particularmente, a da matemática e a da física.

Purificar a linguagem

Uma dessas correntes filosóficas desenvolveu-se no século passado com o nome de positivismo lógico. Os positivistas lógicos distinguiram duas linguagens:

1. a linguagem natural, isto é, aquela que usamos todos os dias e que é imprecisa, confusa, mescla de elementos afetivos, volitivos, perceptivos e imaginativos;

2. a linguagem lógica, isto é, uma linguagem purificada, formalizada (ou seja, com enunciados sem conteúdo e avaliadores do conteúdo das linguagens científicas e filosóficas), inspirada na matemática e sobretudo na física.

Essa linguagem obedecia a princípios e regras lógicas precisas e funcionava por meio de operações chamadas cálculos simbólicos (semelhantes às operações da matemática), que permitiam avaliar com exatidão se um enunciado era verdadeiro ou falso. Dava-se ênfase à sintaxe lógica dos enunciados, que asseguraria a verdade representativa e indicativa da linguagem. A conotação foi afastada.

A linguagem lógica era uma metalinguagem, isto é, uma segunda linguagem que falava sobre língua natural e sobre linguagem científica para saber se os enunciados delas eram verdadeiros ou falsos. Assim, por exemplo, na linguagem comum e diária dizemos: “O livro é de autoria de José Antônio Silva” e, na metalinguagem lógica, diremos: “A proposição ‘O livro é de autoria de José Antônio Silva’ é uma proposição verdadeira se e somente se forem preenchidas as condições x, y, z”.

No entanto, descobriu-se, pouco a pouco, que havia expressões lingüísticas que não possuíam caráter denotativo nem representativo, e, apesar disto, eram verdadeiras. Descobriu-se também que havia inúmeras formas de linguagem que não podiam ser reduzidas aos enunciados lógicos e tipo matemático e físico. Descobriu-se, ainda, que a linguagem usa certas expressões para as quais não existe denotação. Por exemplo, as preposições e as conjunções só têm existência na linguagem e não na realidade.

Além disso, descobriu-se que a redução da linguagem ao cálculo simbólico ou lógico despojava de qualquer verdade e de qualquer pretensão ao conhecimento a ontologia, a literatura, a história, bem como várias ciências humanas, isto é, todas as linguagens que são profundamente conotativas, para as quais a multiplicidade de sentido das palavras e das coisas é sua própria razão de ser.

Crítica ao empirismo e ao intelectualismo
As concepções empiristas e intelectualistas também sofreram sérias críticas dos estudiosos da linguagem no campo da psicologia.

Os psicólogos Goldstein e Gelb fizeram estudos aprofundados da afasia e descobriram situações curiosas. Por exemplo, ordena-se a um afásico: “Coloque nesta pilha todas as fitas azuis que você encontrar nesta caixa”. O afásico inicia a separação. Ao encontrar uma fita azul-claro ele a coloca na pilha das fitas azuis, conforme lhe foi dito, mas também passa a colocar ali fitas verde-claro, rosa-claro e lilás-claro.

Os dois psicólogos observaram, assim, que a palavra azul não formava uma categoria ou uma idéia geral para o afásico e que, portanto, seu problema de linguagem era também um problema de pensamento. No entanto, do ponto de vista cerebral ou anatômico, a parte do cérebro destinada à inteligência estava perfeita, sem nenhuma lesão. Com isso, compreendeu-se que os empiristas estavam enganados e que a linguagem não é um mero conjunto de imagens verbais, mas é inseparável de uma visão mais global da realidade e inseparável do pensamento.

Esses estudos, porém, não reforçaram a concepção intelectualista, como poderíamos supor. De fato, basta tentarmos imaginar o que seria um pensamento puro, mudo, silencioso para compreendermos que não seria nada, não pensaria nada. Não pensamos sem palavras, não há pensamento antes e fora da linguagem, as palavras não traduzem pensamentos, mas os envolvem e os englobam. É justamente por isso que a criança aprende a falar e a pensar ao mesmo tempo, pois, para ela, uma coisa se torna conhecida e pensável ao receber um nome. Como escreveu Merleau-Ponty, a linguagem é o corpo do pensamento.


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Marilena Chauí é professora de Filosofia na Universidade de São Paulo e uma das mais prestigiadas intelectuais brasileiras, com presença atuante no debate político nacional e na construção da democracia brasileira. São freqüentes os seus artigos na imprensa, bem como sua participação em congressos, conferências e cursos, no país e no exterior. É autora de Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas, O que é ideologia?, Apontamentos para uma crítica da razão integralista, Da realidade sem mistérios ao mistério do mundo: Espinosa, Voltaire e Merleau-Ponty, Repressão sexual, essa nossa (des)conhecida, Conformismo e resistência: notas sobre cultura popular e Seminários sobre o nacional e o popular na cultura.

8 de jan de 2012

A sociedade pela qual se luta

O fundo público originado pela luta política dos segmentos mais organizados precisa ser reformulado e novamente vinculado às receitas originárias. Isso permitirá favorecer tanto a progressividade da tributação sobre a renda dos ricos como a universalidade da proteção social (saúde, educação, pleno emprego, assistência social, etc), esta impedida de se firmar diante do processo de financeirização da riqueza, responsável pela adoção de programas de ajuste estrutural e pela condução de políticas econômicas e sociais neo-liberais. A crise mundial poderá criar uma nova reconfiguração desses recursos.

A defesa das atividade produtivas com distribuição da renda e riqueza, acompanhada da democratização das estruturas de poder, produção e consumo, permitirá ampliar o componente estratégico definidor de uma nova maioria política no Brasil. Da mesma forma que há inegáveis atividades políticas para fazer convergir segmentos tão heterogêneos, permanece o desafio de incorporação dos novos contigentes incluídos nos últimos anos e que ainda parecem manter um baixo poder de pressão.

fonte: Brasil entre o passado e o futuro - 2010 - (Dilma Roussef, Guilherme Dias, Jorge Mattoso, José António Pereira de Sousa, Luiz Dulci, Marcio Pochmann, Nelson Barbosa, Emir Sader, Marco Aurélio Garcia)

7 de jan de 2012

As virtudes éticas como "humano meio entre os extremos"

sonhos de mulher
Nós, somos principalmente razão, mas não apenas razão. Com efeito, em nosso ser "há algo estranho à razão". Mais precisamente: nossa parte biológica não participa em nada da razão, ao passo que nossa faculdade de desejo e apetites, tanto naturais como culturais, participa de alguma forma dela, enquanto a escuta e a obedece ou a complementa.

Neste sentido, o domínio desta parte de nosso ser e sua capacidade de dialogar ou submeter-se aos ditames da razão é a "virtude ética", a virtude do comportamento prático.

Esse tipo de virtude se adquire pela experiência política no dia a dia do trabalho, da vida em família, nas atividades de construção do conhecimento e na consolidação de nossos hábitos.

A virtude é propriedade de sujeitos, homens e mulheres, e nós a aprofundamos e a adquirimos, também pela repetição e inculturação em nosso ser dos valores da sociedade na qual vivemos.

Uma criança vai amar mais quando adulta, quanto mais em sua fase infantil, perceber e receber mais amor. Um tocador de cítara vai dominar as valiosas e infinitas notas deste instrumento, quanto mais, nele, investir seu tempo e esforço de repetição. Um militante político vai ser mais ou menos comprometido, quanto mais claro perceber as virtudes humanas que devem nele serem desenvolvidas e aprofundadas, neste caso específico, a disciplina, o comprometimento, a humildade, a busca por conhecimento, o respeito, a responsabilidade, a internacionalização e universalização das ações de construção coletiva da luta.

Dito isto, é necessário romper de modo definitivo com a deformação protofacista daqueles que querem suzanificar o projeto político na cidade de Suzano.

Uma cidade, que faz a experiência de um Governo Popular, obrigatoriamente torna-se uma unidade importante na construção de todo um país e de toda uma civilização. Trazer como pedra fundamental de sua atitude e formulação o bairrismo e o paroquialismo, denota uma atitude medíocre, corrupta e anti democrática.

Para revermos esta deformação todos nós teremos muito trabalho e seremos exigidos, todos, há um grande esforço de recuperação de nossa capacidade em fortalecer as virtudes humanas, fundamentadas na ética, para religarmos os extremos. Reorganizar os pressupostos de uma sociedade para todos, demanda, inclusive, uma ousada tarefa de libertar os imbecis (imbecilizados) suzanificadores, deles próprios.

5 de jan de 2012

No princípio era o Verbo. Agora é a morte também no verbo: "suzanificar"

Uma rápida "análise" sobre os "suzanificadores".

Na organização do PT em Suzano, também em Poá, aprendemos muitas coisas. A cavalar experiência de vida que somos brindados a cada momento, seja em nosso dia dia de simples mortais, seja na experêrincia de governar, seja no aprofundamento do significado de nossa militância e na apreciação da experiência de valorozos companheiros, obrigatoriamente, saboreamos as alegrias e as tristezas deste momento histórico que vivemos: na ousadia de avançar ao vivo e a cores em nossa humanidade, rica e falha, mas teimosa e comprometitda, dá para ficar extasiado, e como uma criança, prevendo que ocorre, aqui e agora, todo o infinito, e "um eterno retorno".

Mas deixando a solidariedade fluir e o diálogo com a realidade exercitar nossa capacidade de contemplação, entres várias evoluções e retrocessos, infelizmente um retrocesso me chamou a atenção e feriu fundo  "n' alma".

Ferir fundo n'alma
é constatar uma realidade
que afronta e dói,
avassaladoramente,
de modo profundo,
suzanificadores
ponteagudo e rompedor ,
capaz de penetrar,
cruel e vivissecante
nosso corpo militante.

Da capacidade e da missão,
humana e transcendente,
de organizar com a natureza,
nascida e permanente,
nossa cultura contigente,
no tempo e no espaço,
apropriamos a palavra,
partilhamos o discurso,
traduzímo-lo em projeto,

Como diz o evangelista,
no início era o Verbo.
Se fez carne.
Penso eu que se fez vida.
Mas na vida vivida,
sinto a morte corrupta,
matando um sonho de gente,
que de homem e mulher,
ousou viver diferente.

Salve nossa ousadia,
para aprofundar valores,
enfrentar o protofacismo,
de objetos opressores,
travestidos de salvadores,
se chamam de paizão,
suzanificadores.

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Tolerância zero ao protofacismo.


por Por RAYMUNDO DE LIMA
Professor do DFE-UEM e membro da BFC-Centro de Psicanálise, de Curitiba
A ascensão de Berlusconi na Itália, de J. Haiden na Áustria e de seu cínico Partido da Liberdade, a tentativa de encontro dos simpatizantes de Hítler no Chile cuja história foi manchada pelo fascismo de Pinochet; a tentativa de "limpeza étnica" e as atrocidades dos sérvios contra os kosovares, a atitude de Israel frente aos povo palestino, a recente medida imposta pelo Taleban que controla o Afeganistão obrigando a minoria não islâmica a usarem uma marca de 'não cristão' na roupa. Adiciona-se ainda, a intolerância contra imigrantes pobres na Europa e nos EUA, a escravidão e o genocídio de povos da África, ontem e hoje, também a atitude repressiva da China contra o povo do Tibet, o sistema de castas que ainda vigora na Índia, os afro-descendentes que são ínfima minoria nas nossas universidades, polêmica acontecida na Conferência da ONU contra o racismo, em Durban, África do Sul, são alguns sintomas da movimentação política e ideológica de nossa época que preocupa qualquer pessoa minimamente informada sobre o que é e o que foi a experiência do ódio racista, nazi-fascista na Europa, no final da década de 30, atravessando toda 2a. Guerra Mundial. Atualmente, o retorno do ódio terrorista, inaugura uma nova modalidade de holocausto de inocentes, certamente um fascismo de fundo messiânico que não quer tomar o poder mas destruir quem ocupa qualquer posição de poder e, por isso mantêm-se inimigo invisível.
No entanto, observa-se que em nossa época muitos chamam indistintamente qualquer atitude autoritária de nazista ou de fascista. Na comemoração dos 500 anos de Brasil, o letrado presidente FHC qualificou de fascista a atitude do MST de tentar atrapalhar a festa. Nos anos 70, era freqüente a direita pretender "queimar" alguém de projeção espalhando que ela era comunista, ou fascista, ou gay, e, hoje, no meio intelectual, chamar alguém de fascista por uma ou outra atitude que nem sempre merece tal marcação, causa constrangimento entre outras conseqüências.
Inicialmente, é necessário esclarecer que uma coisa é o nazismo e outra é o fascismo. Pela complementação histórica e ideológica de ambos, as vezes usa-se "nazi-fascismo" ou, ainda, fala-se de organização do estado nazi-fascista. Embora, muitos pensam o fascismo somente como um regime de Estado, hoje, ele está pulverizado nas relações humanas do cotidiano. Numa mesa-redonda em 1980, no Rio de Janeiro, o psicanalista Narciso Mello Teixeira sinalizou que o fascismo não é perigoso apenas quando se torna fascismo de Estado, mas também quando é praticado nas violências invisíveis e sem sangue que acontecem no dia a dia. É fato que, ninguém se responsabiliza pelo seu ato fascista. Ninguém gosta de assumir seu lado fascista - que inconscientemente qualquer um pode estar reproduzindo - porque há mecanismos psíquicos que vem em socorro, quer para renegar suas idéias, ou sentimentos ocultos, quer para sustentar um auto-engano sobre um ato escapado em relação ao outro diferente.
Houve um tempo em que o fascismo fazia a apologia da guerra, do homicídio. Tudo era-lhe válido, inclusive o derramamento do sangue, para se chegar ao poder. (Diferente do terrorismo que é sangrento e não tem projeto político de chegar ao poder). O protofascismo de nosso tempo pós-moderno mudou de tática. Em vez de visar o rápido efeito violento, o protofascismo é calculado em termos de microviolências cujos efeitos danosos acontecerão à médio e longo prazos; também está presente através do marketing (comercial ou da fé religiosa) onde manipula o desejo das pessoas, (o espaço religioso fundamentalista é o solo fértil do protofascismo atual) mas também ele goza em pulverizar o mal-estar entre pessoas, semear a confusão de idéias, fazer da contradição e do paroxismo um empreendimento de efeitos hipnóticos. Ou seja, há uma única maneira de ser nazista, mas há várias maneiras de ser fascista. 
Como identificar o protofascismo em nosso meio


Preocupado com a ascensão do fascismo na Europa, denominado de "nova direita", o pensador e semiólogo italiano, Umberto Eco, já em 1995, em artigo intitulado A nebulosa fascista, (Folha de S. Paulo-Cad.Mais! 14/05/95) propôs 14 pontos que visam distinguir o nazismo do "protofascismo" na sociedade contemporânea. (O "proto" refere-se aos sinais de um início ou os sintomas de ressurgimento do fascismo em nossa época). 
A seguir, apresentamos 8 distinções entre ambos, baseados em U. Eco, S. Beauvoir, S. Sikek, entre outros da bibliografia consultada. 
1) O nazismo tinha uma teoria das raças, do povo ariano naturalmente escolhido para mandar nos demais, era anti-cristão e se apropriava de  uma filosofia materialista. Para Hitler, a decadência da civilização proviria obrigatoriamente do cruzamento de raças, portanto, sua solução era que a humanidade fosse dividida segundo as raças, onde haveria de fundar o Übermenshc (super-homem). Seu regime político era necessariamente totalitarista. Já o fascismo mesmo não sendo inteiramente totalitário, era um sistema de força que deixava a população dividida, entre os partidários da truculência e os pressionados a passar para o lado dos fortes, senão seriam perseguidos. Tanto faz se o fascismo for de estado, de uma instituição, de grupos ou indivíduo, sua atitude é fundada na intolerância, na perseguição aos diferentes e termina gerando efeitos traumáticos sobretudo naquelas pessoas que são despossuídas de poder. A tolerância é uma virtude que "tem certos limites, que são os de sua própria salvaguarda e da preservação de suas condições de possibilidade" (Comte-Sponville, A., 1995, p. 173-89). 
Assim como não se pode ser tolerante com o criminoso, também não se pode ser tolerante com quem é intolerante. Karl Popper, observa que há um paradoxo da tolerância: "Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes [e protofascistas]e se não defendermos a sociedade tolerante contra esses assaltos [agressões, abusos de poder, terrorismos], os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância". Portanto, ser tolerante para com o protofascismo e seus agentes - que são fudamentados na intolerância aos diferentes no modo de ser, de pensar e agir - é, pois se oferecer ao aniquilamento enquanto virtude e pessoa existente. 
2) Um traço protofascista é o "culto da ação pela ação". A ação fascista é beligerante e carece de reflexão prévia, logo, é uma ação de fundo irracional ou passional e imprudente. O fascista não fala, age e faz discursos. Quer dizer, nele some a pessoa - que fala - para dar lugar ao discurso político em nome de alguma causa. O discurso que a engendra costuma vir em forma de razão e moral cínicas, de moralismo e legalismo positivista. Segundo S. Sizek, a "razão e a moral são cínicas" na medida em que eles sabem que fazem um ato mau, mas mesmo assim argumentam sobre a "justeza" e a "humanidade de seus atos". Sua denúncia não é baseada na justiça, mas no seu próprio sentido de justiça que visa prejudicar alguém, por vezes fazendo uso da delação, da palavra ferina, de insinuações e alusões e até pode usar de agressão física num momento de descontrole. (No caso do terror, a violência extrema é calculada racionalmente, portanto, não se trata de um ato louco, mas de um ato perverso). O protofascista, procura justificar que seu ato foi "para o bem coletivo...", "para evitar a decadência estética das artes...", "para evitar um mal maior" ou ainda como era freqüente nos tempos da ditadura: "para salvar a nação dos comunistas, da corrupção, dos gays", etc.
3) Enquanto o desacordo é sinal de diversidade, o protofascista pretende alcançar o consenso explorando o medo e a angústia das pessoas. O ambiente de trabalho, por exemplo, é lugar escolhido para gerar intrigas, divisões. Há estudos que trabalham com a hipótese de que espaços movidos pelo espírito protofascista produz mais esquizofrenias paranóides que os outros. Assim como existem seres humanos "terapêuticos", que fazem bem aos outros, também há personalidades perversas que tem a capacidade de causar desarmonia social, desequilíbrio psíquico e atravancar o andamento de projetos, desenvolvendo: desconfiança, ressentimento, inimizade, sensação de pavor, de perseguição ou paranóia.
4) Não importa se a ideologia "oficial" do grupo é nazi-fascista, anarquista, ou até mesmo socialista ou ecologista, a tática protofascista pode intencionalmente ocupar todos os espaços para fazer sua política de "tudo vale". Os indícios vão desde slogans do tipo "Brasil: ame-o ou deixe-o" (lembram do período Médice?), também, posicionamentos do tipo "quem não está conosco, está contra nós" (comuns em assembléias de decisões). Por vêzes, as atitudes moralistas ou legalistas "da letra" podem esconder interesses ocultos de ânsia pessoal pelo poder ou de gozo perverso em sustentar a atitude de beligerância. 
5) A estrutura psíquica do protofascista tende a ser perversa e narcisista. "Perversa" porque são incapazes de amar outra pessoa e respeitar a lei que fundamenta a convivência humana e "narcisista" porque "acha feio o que não é espelho"; quanto patológico, o narcisista rejeita tudo que é diferente (idéias, opiniões, crenças, valores, modo de agir e de ser) e somente aceita o que é seu igual. Há patologia no seu ato de olhar que sempre acha alguém ou grupo como "mau". Para o nazista, o narcisismo está em atribuir a culpa de tudo de ruim na economia e na sociedade aos judeus. Hoje, o fascista pensa que aqueles que não se enquadram exatamente nas idéias, crenças e valores que ele acredita, devem ser queimados, eliminados socialmente ou fisicamente. A vontade de poder do nazismo e a intolerância do fascismo tem repugnância pela compaixão ou empatia que é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir-se na pele do outro e sofrer com ele. (O mesmo posicionamento do fascista acontece com o terrorista, com um diferencial: sua causa é o gozo místico que está acima da vida dele e de todos, não há compaixão, não há empatia, só fanatismo). É próprio da estrutura perversa e narcisista do protofascista: a dureza de caráter, a frieza de espírito, a indiferença, a secura no coração, a insensibilidade diante de um necessitado e sua tendência a falar mal dos que não se adequam à sua camisa de força moral. São os agenciadores das fofocas e da politicagem. Goebbls, o ministro da comunicação de Hitler, dizia que "uma fofoca é uma mentira que repetida várias vezes, terminam virando verdade". 
6) O protofascista, acredita [delira] que está em marcha uma conspiração, uma rede secreta de conspiração. Os supostos inimigos podem ser os comunistas, os negros, os gays, as mulheres que estão subindo ao poder, todos aqueles que recusam a fazer pacto cego com ele, são vistos como os "do mau". Sua visão de mundo maniqueísta divide-se entre os que representam "o bem" e os que representam "o mau". Um fascista costumava dizer: "Quem não está do nosso lado é contra nós". É notável seu desprezo pelo pluralismo de idéias, a incapacidade pelo diálogo e debates de idéias. Eles pensam que estão sempre do lado do bem e da verdade absoluta. O protofascista vive a fantasia de ter sido eleito pelo divino para fazer o bem. Seu ideal e ação são messiânicos. (Nesse sentido, tanto os EUA, como os terrorista tem algo em comum: o messianismo delirante - escrevo esse adendo após os ataques de 11/09/01, em Nova York). Segundo U. Eco, os fascistas estão condenados a perder suas guerras porque são visceralmente incapazes de avaliar objetivamente a força do inimigo. 
7) Para o protofascista, "não há luta pela vida mas vida pela luta". Acredita que o homem é o lobo do homem, a vida é uma luta em que vencem os mais fortes. Vivendo em estado de guerra permanente, ele vê o pacifismo como fraqueza ou simplesmente um mal na sociedade atual. Umberto Eco chama de "complexo de Armagedon", porque há nele a crença de que haverá uma batalha final para derrotar de vez os inimigos, após o qual o movimento controlará o mundo. Após a "solução final", haverá uma Era de Ouro, o que contradiz com o princípio da guerra permanente no fascismo. Enquanto a Era de Ouro não vem, alguns poucos fascistas escolhem viver perigosamente o gozo da luta política. Mussolini, símbolo número um do fascismo, que se aliou a Hitler na 2a. guerra mundial e que acabou pendurado de cabeça para baixo, exposto à execração pública dos italianos, tinha como lema de vida "vivere pericolosamente". Dizia: "Prefiro um dia de leão a mil de ovelha".
8) Para além das idéias de Umberto Eco, observamos que o protofascista é movido pelo esquizo-paranoidismo. Por exemplo, em casa tende a ser uma pessoa de convivência harmônica, aparentemente equilibrada, mas quando está com seu grupo de iguais ideológicos, entra em "transe grupal", isto é, alucina um campo de batalha onde se oferece aos imperativos da gestalt do grupo, como um soldado, uma bestasfera agressiva, intriguenta, e suicida, enfim, abdica de sua identidade pela "causa" mítica. Alguém disse que tais pessoas são tomadas pelo "espírito de Torquemada" (inquisidor espanhol que mais matou em nome da 'santa inquisição') ou pelo "estilo Goering", o segundo homem após Hitler, que na intimidade era bonachão, amante das artes e da cultura, mas no trabalho colocou sua inteligência na invenção dos campos de concentração e no extermínio em massa dos não arianos. (Esse estado de "transe" poderia ser coletivo e vingativo; uma vez que é puramente passional poderia causar efeitos extremamente imprevisíveis, tanto homicidas como suicidas. É só dar uma olhada na história das guerras).
Uma vez terminada a ditadura militar, no Brasil, de clara orientação fascista, lamentavelmente ainda sobrou seus efeitos camuflados entre diversos grupos sociais, tal como aquele que ensaiou um movimento separatista no sul do Brasil. Na convivência cotidiana, os protofascismos estão expressos nos assédios morais, nos discursos que desqualificam o próximo, nos atos de injustiça, nas bisbilhotagens dos grampos telefônicos, nas intrigas calculadas para prejudicar um colega de trabalho ou estudo, nas falas e atos provocativos de qualquer espécie, etc.
Diante do obscurantismo de nossa época, da esclerose de idéias e de valores, da mediocridade de pensamentos que não consegue dar conta de entender a complexidade de nossa época e, sobretudo, a ausência de sabedoria em todos os setores da existência humana, só nos resta ficarmos de plantão para prevenirmos em relação ao protofascismo individual ou institucional. 
Ou seja, no cenário mundial contemporâneo, há indícios de aparecimento de um novo fascismo (o protofascismo) conforme apontamos no início desse artigo, projetando uma nova Auchwitz, ou outros novos movimentos movidos pelo ódio, que obrigam os diferentes a pregar no peito ou na alma suas ideologias tresloucadas, símbolos e atitudes de intolerância e de opressão do mais forte sobre os fracos. 
Infelizmente, o fascismo, nazismo e o racismo estão entre nós sob inocentes disfarces. (Já o terrorismo, pela sua própria natureza e modo cruel de expressão é de origem perversa e narcisista, gostando de se expor os seus efeitos e fetiches visando obter gozos "loucos" com o sofrimento dos outros). 
Contra o protofascismo, o nazismo, o racismo e o terrorismo resta-nos mais que nos defendermos, rápida e eficazmente, desmascará-los, desmantelar sua armação homicida e suicida, que pode aparecer em qualquer momento e em qualquer parte do mundo. Nossa senha deve ser: "não esquecer, resistir, denunciar e sobretudo apostar na VIDA, sempre!!!".

Um reflexão sobre a China.

Se tiverem um tempo dêem uma lida. A data não importa, o texto é bem atual e interessante.


Sobre a China: uma escolha a fazer.

Sobre a China estamos na hora de dever escolher. Ou estamos com quem, por uma razão ou outra, hostiliza e critica a priori qualquer coisa que o governo chines faz. Ou assumimos uma postura de realismo e abandonamos todas as varias formas de preconceito antichines.

Porque a realidade é que os EEUU usam qualquer argumento para impedir que a China se desenvolva e possa em poucos anos virar a primeira economia a nivel internacional. E os EEUU, que se  se consideram a unica superpotencia e que se atribuem o direito de mandar no mundo inteiro vêm hoje na China é o principal obstáculo à propria supremacia!

Por isso, particularmente nos últimos anos todos os  argumentos são usados para tentar encurralar a China e criar uma atmosfera favoravel para uma   nova "guerra fria".


Tibet ,Dalai Lama,Sinkiang, Islami,Go ogle, cambio, prisões de dissidentes, salários baixos, conflitos na Koreia, rivalidade com o Japão ou com a India , etc, etc, etc.......E' uma interminavel ladainha de demonização da China .


E, o que é pior, esta  política americana tem o apoio por parte de partidos de esquerda (particularmente na Europa) e também de pessoas que se consideram democraticas e pela paz.

Algums dos  problemas da China  são bem reais. Outros são enfatizados. Outros  são só propaganda. Mas todos são repetidos obsesivamente e com petulância pela mídia corporativa nacional e internacional ligada aos interesses americanos e tem como único objetivo: passar uma imagem toda negativa da China.

Um exemplo é a questão do Tibet:


A população tibetana tem justas rivendicações de autonomia e de respeito da sua cultura. Mas é verdade também que hoje a maioria da população do Tibet é de origem chinesa. Emigraram nos siglos e nas decadas passadas em busca de trabalho. Devem ser todos rempatriados? E a distruição durante a revolução pelo governo chines do sistema feudal tibetano baseado no trabalho forçado de camponeses e pastores miseraveis a favor de poucos milhares de monges representa um fato irreversível.



E quem financia as inúmeros viagens do Dalai Lama e de seus seguidores?

E os presidente dos EEUU e o Congresso  que recebem oficialmente sempre o Dalai Lama por quê nunca receberam os representantes do outros  separatismos (aquele do Kashmir ou kurdo ou basco ou norte irlandes ) ?


E é fantasia pensar que um Tibet "independente" viria ser uma imensa base militar dos EEUU (o mesmo que aconteceu com o Kossovo)?


Ainda mais problemática pelos chineses é a situação na grande região do Sinkiang onde vive uma minoria muçulmana. Se prevalessem as organizações separatistas (financiadas faz decadas pelos EEUU) seria um quinto do território a sumir da mapa da China. E é uma região onde os americanos impuseram as suas  bases militares aos governos das ex repúblicas soviéticas: bases militares que  servem hoje para alimentar a guerra contra o  Afganistan (pais, alias, que tem fronteira com a China).


E qual é hoje a estratégia do governo chines para conter no Tibet ou no Sinkiang as pulsões separatistas e até terroristas?  Costruir rodovias, ferrovias, aeroportos, desenvolver a agricultura e o comércio, instalar fabricas alem de hospitais, universidades, centros inter-culturais. Pode não ser suficiente mas temos que apostar que o problema das minorias etnicas seja resolvido sem conflitos nem repressões. Em todo caso que seja bem vinda a rodovia e a ferrovia que iram coligar o centro da  China com o sul da Europa. 



Bem mais util para combater o estremismo religioso que a "guerra ao terror" dos americanos e da Otan! 
Porque a China foi sempre  um pais multietnico.Na sua milenária historia empre aconteceram conflitos entre a grande maioria de etnia Han (90% da população)  e as dezenas de minorias que totalizam só 10% da população mas ocupam mais do 50% do território. Mas se a China continua a representar um pedaço importante da civilização humana  é porque a convivencia dos diferentes povos acabou por prevalecer sobre o espirito de dominio e de separação.


Claro que os EEUU não tem este problema ja que que as suas populações indígenas foram exterminadas e não representam mais um problema!

E o que todos os democraticos devem entender é que um processo de desintegração ou de isolamento  da China não seria um avanço para ninguém; nem para os chineses que voltariam a ser humilhados e semi colonizados nem para os outros povos da região (como a India), que estão tentando sair da pobreza,  e nem para o resto do mundo que perderia o principal motor atual  de crecimento global.

E as outras questões que os EEUU agitam sistematicamente contra a China?



Tem a questão dos direitos humanos! É um outro problema real mas que deva ser considerado na sua justa perspectiva histórica.

A China de hoje vem de um regime autoritario e revolucionário que destruiu numa geração siglos de feudalismo, de colonialismo, de guerras. E que libertou centenas de milioes de camponeses que  lutavam para ter 1 hectar de terra (a nossa "semi reforma agraria" distribue aos sem-terra 30- 40 hectares). E daquele unico hectar de terra os chineses deviam extrair todo o sustentamento deles. E isto a pesar das secas, das enchentes, dos terremotos, que faziam dezenas de milhoes de vitimas a cada ano.


E foram feitos também muitos errores durante a fase maoista da revolução como o tal "grande pulo" ou a tal de "revolução cultural". Era a época do puro igualitarismo que dividia a pobreza. Mas nos anos 80, abrindo-se ao capital externo e aplicando as técnicas do mercado, a China achou o seu caminho para "aumentar o bolo", criar riqueza  e hoje é a segunda potencia economica do mundo. Com quase um bilhão de pessoas que sairam da pobreza, o que representa  um resultado que nunca  foi alcançado na historia da humanidade.


E tudo isso foi posivel porque foi mantida a função do Estado como regulador da economia e da sociedade. E hoje na China é a politica que manda na economia  e não viceversa (como acontece nos paises capitalistas que conhecemos). E se bem qu as multinacionais operam também na China é o Estado que dita as grandes escolhas economicas e sociais.
    
Mas  é justamente o grande desenvolvimento economico e o crecimento da sociedade civil que obriga  hoje a China a superar aquelas formas de autoritarismo que caraterizaram as primeiras decadas da revolução.


O problema é : qual é o modelo de democracia  que os chineses devem aplicar? Deve ser necesariamente o modelo ocidental  que os chineses chamam de "democracia da porta giratoria"? Um sistema no qual um partido entra outro sai mas ambos precisam de enormes quantias de dinheiro para se  sustentar? E não somos nos ocidentais os primeiros a reconhecer que o nosso tipo de democracia responde sempre menos ao direito das populaçoes de ter uma  parte ativa real na vida politica e social? 

Hoje na China as tentativas de introduzir espaços de participação popular se multiplicam asim como são continuas e divulgadas na imprensa as criticas aos fenomenos de corrupção e de burocratismo que persistem no funcionamento do partido único.


E é também  surpreendente  a disponibilidade em todos os níveis da sociedade e do mesmo governo de conhecer as experienças de outros paises  em matéria de estado de direito, de wellfare, de saúde, de educação, de liberdades individuais, etc. Os chineses querem aprender: este é o dado mais promissor! E uma novidade absoluta nos paises socialistas, ex ou atuais!

  
E quem sabe que , num esforço de corresponder aos desafios de uma sociedade nova, não possam sair justamente da China experiências e formas inovadoras de democracia real que podem tambem ser uteis  para nos?


Afinal temos um fato que nos , aqui' , no Ocidente, perdemos muita da nossa capacidade  de inovar nas ideias e nos valores. Ao contrario: nas nossas sociedades se estão enraizando ideias e praticas, seja politicas que economicas que sociais, que definem um horizonte triste e fechado para as nossas populações. Parecendo quase que, particularmente na Europa e nos EEUU, a democracia seja um optional e que fazer as guerras seja a unica saida para manter o poder.

E enfim uma outra acusação aos chineses que esta virando "senso comun" tambem entre as pessoas de esquerda: 
a China seria o novo imperialismo nem tanto diferente daquele das velhas potencias coloniais!
Quem fala asim demonstra, em primeiro lugar, que sabe pouco do que paises com o Francia, Bélgica, Italia ou Inglaterra fizeram na Africa e na Asia. Fizeram e continuam a fazer! Como se vê hoje na Libia.

Há quem fala de novo imperialismo chines precisaria perguntar: a  China não deveria investir  e comercio na Africa? É algo negativo que os produtos chineses por seu custo baixo possam ser disponiveis  também para as populações de baixa ou baixissima renda? 


A realidade é que se hoje muitos paises africanos començam a sair da miséria é porque acharam um partner que não quer dar aulas de "direitos humanos ", nem de "luta  a corrupção", nem de " exportar a democracia". Aulas que vem de quiem financia conflitos civis, impõe politicas neo-liberais, corta financiamentos, e deslancha  "guerras humanitárias".


Claro! Os chineses não são uma organização de caridade (com tantos pobres ainda na China) e sabem fazer o proprio interesse. E algumas das praticas deles (por ex na area trabalhista) são criticáveis. E também o intercambio baseado só nas materias primas é um problema real (como se vê no Brasil). Mas a demanda é: alguém acha que é com os concertos humanitários em estilo Bono que a populacão africana pode melhorar  a sua vida? Ou é construindo estradas, ferrovias, aeroportos, aquedutos, hospitais, estádios, fabricas, escolas e todo o que serve para uma vida normal ? Os chineses fazem isso. Algo que as potencias ocidentais não fizeram em duzentos anos!


E que não estão fazendo os EEUU que querem tirar só petróleo , ouro e diamantes, instalar bases militares e vender  armamentos. É só considerar que o comercio chines de armas é 2% daquele mundial mentre aquele  americano é mais que 50%, e boa parte é destinado como "ajuda" justamente á Africa. 
É por isso que  hoje na Africa alguns paises estão crecendo a mais de 5-6% e é natural que nestes paises començe a crecer a' influencia chinesa seja econômica ou política.

Isto não significa absolutamente  que está nacendo um novo "campo socialista". Que é o que também os chineses (lembrando a desastrada experiencia da ex Urss) não querem.


Significa só que os paises pobres (na Africa, na Asia mas também na Europa) començam a enxergar a China pelo que ela realmente representa: um contrapeso fundamental as pretensões dos EEUU e dos principais governos europeus de ditar a regras do jogo a nivel mundial.

Por isso chegou a hora que todos os que se consideram democráticos, progressistas, de paz, de esquerda enxergarem a realidade: a China não é o socialismo que a gente sonhava mas a sua existencia e a sua força economica e política nos ajuda a não ser simples suditos do único, verdadeiro "imperio" (que e' aquele  americano) e a manter a nossa independência como paises e como povos.


Antonio Fattore 23-4-2011