22 de nov de 2012

Ponto de vista: ... ainda a falta de justiça.

pontos de vista (desenho de Rosenil Barros Orfão)
Tudo que falo aqui, em juizo negarei. Só vale para o meu juízo.Também, de outro jeito não tem como. Mesmo que seja por vontade, racionalidade ou sentimento. O que manda é o meu juízo. Bobagem querer me enganar. Até porque, isto eu não admito. E a experiência mostra, desnuda e desanuvia: só faço, digo e penso a meu juízo.

Mas sei que meu juízo não é tão meu. Ele foi formado por gente que nem conheço, e outros que nunca vou saber se existiram. Afinal, entre seis bilhões de seres humanos na terra, mais de dez mil anos de experiência humana em reciprocidade animal, mineral e vegetal, querer que a insignificância do meu "juizinho" tenha autonomia, é querer brincar com a humildade ou achar que domina a presunção.
Mas por cargas d`água que, pela experiência, vontade ou intuição, acho que não entendo todas, o meu "juizinho" foi capaz de aprender um cem número de coisas que, não poucas vezes, me coloca em surpresa e admiração.
Avalio que a água, o ar e a vitalidade das coisas e de seres, é importante para a humanidade. Além de importante, por força da cultura, torna-se extremamente útil. Por ser útil, o sistema econômico, político e religioso ao qual meu "juizinho" foi formado, acha que é "bom".
Cada dia uma surpresa: o ar que respiramos, a água que bebemos, os animais, minerais e plantas que comemos, aliados ao modo de comprar, de fabricar, de vender, de fazer, de armazenar, de conhecer o sabor, de conhecer a tonalidade, de conhecer a textura, de saborear a quentura, de apreciar o geladinho(a), torna cada dia da vida uma aventura, um desafio e por vezes, uma realização de humanidade.
Ai, ai, ai, quanta coisa. E meu "juizinho" fica doido. Muitas coisas ele não entende. Também ele tem mania de querer entender tudo. Mas ainda bem que não dependo só dele. Vivo em minha comunidade. Uma grande comunidade. Nela tenho minhas referências, enxergo meu rumo. Ganho de graça algo que chamo de senso. Senso de bom, que vem carregado de amor, respeito, alegria, compreensão, entendimento. Capaz de enfrentar a dor, o medo, a incerteza e mandar para longe a melancolia, a angustia e o desespero, que vez ou outra teimam em hegemonizar.
Mas se for em juízo, nego tudo isto. Porque minha comunidade não tem instrumento de fazer justiça. Na verdade nunca vai ter. É impossível. 
A justiça, diferente da música, da política, da arte, da religião, das coisas da economia e da cultura, não é possível ser instrumentalizada. Não é possível construir um aparelho de justiça. Esta nunca será aparelhada. 
A justiça está nas coisas, nas relações e na finalidade de ambas. É como o ar, como o amor. Se ensacar, vai faltar. Produzir não dá. simplesmente, para existir, tem que estar. Tem que ser presente.
Tem gente que pensa poder operar instrumentos que fazem justiça. Ledo engano. 
As parafernálias burocráticas da cultura, que se colocam, as vezes como ciência, as vezes como poderes, as vezes como sistema e se dizem promotores da justiça são um encargo social que devemos pagar para atenuar uma consciência social que ainda está longe de viver a cada minuto e a cada relação, a verdadeira justiça.
Acabam todos estes, tendo um fim em si mesmos. Deixam a justiça em segundo plano, pois estes aparelhos apartados do lugar, da experiência do cotidiano, envolto em palácios e tribunais, papeladas e palavrórios nunca vão sentir nossa humanidade e o caminho para consolidá-la.
Por isso, a meu juízo sou Zé Dirceu. Este último afirmo em juizo.
Rosenil Barros Orfão

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