28 de fev de 2012

Velho comunista

Crônicas do Motta*


É admirável o empenho do senador tucano Aloysio Nunes Ferreira em defender o seu partido, o governador paulista e todos os envolvidos na destruição do bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, sob a desculpa de se promover no local uma desocupação ordenada pela Justiça.

O episódio ganhou repercussão internacional não só pela violência com que a ordem judicial foi cumprida, mas também pela crueldade da determinação: afinal, milhares de pessoas foram expulsas de suas casas humildes sem que os responsáveis pela medida tivessem a menor noção do que iriam fazer depois com elas.

Sob qualquer aspecto, Pinheirinho é um absurdo, uma barbaridade.

O senador Aloysio, porém, a julgar pela sua atuação na Comissão de Direitos Humanos do Senado, está mais preocupado com um provável uso político do episódio contra o seu partido do que com o destino das vidas dos milhares de ex-moradores do Pinheirinho e das iniquidades a que foram submetidos pela Polícia Militar e seus comparsas.

Para ele, a culpa de todas aquelas cenas de destruição e desespero foi de "militantes" de partidos radicais que tentaram, na suas palavras, promover ali uma "pseudorrevolução".

O senador Aloysio, hoje um incansável defensor da ordem e da propriedade, há anos atendia pelo nome de "Mateus", codinome com que participou das atividades, na ditadura militar, da Aliança Libertadora Nacional, a ALN, organização guerrilheira, ao lado de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira. Em 1968 até ajudou nos assaltos a um trem e a um carro-forte. Fora do Brasil, fez carreira na ALN até voltar ao Brasil, anistiado, para recomeçar sua carreira política, dessa vez sem armas na mão, em organizações bem menos radicais, como o PMDB de Franco Montoro ou o PSDB de José Serra.

Não se sabe se o senador Aloysio ainda guarda em seu íntimo a chama revolucionária.
Pelo visto no embate verbal que teve com o senador Eduardo Suplicy na Comissão de Direitos Humanos é mais provável que ele tenha, infelizmente, seguido o caminho de tantos outros jovens que, de tão inconformados com as injustiças do mundo, simplesmente resolvem parar de lutar contra elas.
No seu caso, além disso, parece que o desencanto de fazer parte dessa batalha perdida foi tão grande que ele não só desertou de sua tropa como se passou para o inimigo.

Mas esse pode ter sido apenas um movimento tático, uma manobra para despistar os adversários.

É que esses velhos comunistas são capazes de tudo. 



*Carlos Motta é jornalista profissional diplomado e está na ativa desde a década de 70. Não acredita em jornalismo imparcial. E este não é um blog jornalístico.

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