28 de ago de 2011

Sempre a quase última.....

Casaldáliga 2011-07-17


Possivelmente seja essa, para mim, 
a última romaria pé no chão. 
A outra 
já seria contando estrelas no seio do Pai. 
De todo modo, seja a última 
seja a penúltima, 
eu quero dar uns conselhos.

Velho caduco tem direito de dar conselhos...

E a memória dos mártires, o sangue dos mártires, 
mais do que um conselho, [é] compromisso 
que conjuntamente assumimos, ou reassumimos. 


São Paulo, depois de tantos dogmas que anuncia, 
tantas brigas teológicas, 
tantas intrigas por cultura, 
dá um conselho único: 


‘o que eu peço de vocês [é] que não esqueçam dos pobres; 
o que eu peço de vocês [é] que não esqueçam a opção pelos pobres, 
essencial ao Evangelho, 
à Igreja de Jesus’. 


A opção pelos pobres. 


E esses pobres se concretizam nos povos indígenas, 
no povo negro, 
na mulher marginalizada, 
nos sem-terra, 
nos prisioneiros..., 
nos muitos filhos e filhas de Deus 
proibidos de viver 
com dignidade e 
com liberdade. 


Eu peço também para vocês que 
não esqueçam do sangue dos mártires. 


Tem gente, na própria Igreja, que acha que chega de falar de mártires. 
O dia que chegar de falar de mártires deveríamos apagar o Novo Testamento, fechar o rosto de Jesus. 


Assumam a Romaria dos Mártires, 
multipliquem a Romaria dos Mártires, 
sempre, 
recordemos bem, 
assumindo as causas dos mártires. 


Pelas causas pelas quais morreram, 
nós vamos dedicar, 
vamos doar, e se for preciso 
morrer, 
a nossa própria vida também... 


E ainda uma palavra: 
há muita amargura, 
há muita decepção, 
há muito cansaço... 


Isso é heresia! 
Isso é pecado! 
Nós somos o povo da esperança, 
o povo da Páscoa. 


O outro mundo possível somos nós! 
A outra Igreja possível somos nós! 


Devemos fazer questão de vivermos todos cutucando, 
agitando, comprometendo. 
Como se cada um de nós fosse uma célula-mãe espalhando vida, 
provocando vida. 


A Igreja da libertação está viva ressuscitada 
porque é a Igreja de Jesus. 
A teologia da libertação, 
a espiritualidade da libertação, 
a liturgia da libertação, 
a vida eclesial da libertação não é nada de fora, 
é algo mui de dentro, 
do próprio mistério pascal, 
que é o mistério da vida de Jesus, 
que é o mistério das nossas vidas. 


Para todos vocês, 
todas vocês, 
um abraço imenso, 
de muito carinho, 
de muita ternura, 
de um grito de esperança, 
esse cantar viva a esperança que seja uma razão... 


Podem nos tirar tudo, 
menos a via da esperança. 


Vamos repetir: 
‘Podem nos tirar tudo, 
menos a via da esperança!’. 


Um grande abraço para vocês, 
para as suas comunidades, 
e a caminhada continua! 


Amém, Axé, Awere, Saúde, Aleluia!”

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