27 de jan de 2011

Sete prefeitos e um destino

A estratégia política de Alkmim abre caminhos para a República Popular de São Paulo avançar e fortalecer o Brasil

A estratégia política de Alckmin (quem ganha é a população porque no processo o PSDB perde)

Do Valor
PSDB mira em reduto petista em São Paulo 
Cristiane Agostine e Ana Paula Grabois | De São Paulo26/01/2011
De olho nas eleições municipais de 2012, o PSDB busca expandir seus domínios para o cinturão vermelho paulista, área que concentra prefeituras do PT na região metropolitana. Por meio da recém-criada Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) pretende reforçar investimentos nas áreas de transporte, saneamento e habitação. A estratégia do governo estadual é aproximar-se de prefeituras petistas e ganhar visibilidade em redutos do partido rival, com projetos como o Bilhete Único e obras para conter enchentes.

O secretário da nova Pasta, Edson Aparecido, já procurou os prefeitos petistas das maiores cidades da região, como São Bernardo, Diadema, Osasco, Guarulhos e Mauá. Nos próximos dias, Aparecido pretende reunir todos os prefeitos da região metropolitana para discutir projetos conjuntos.

Tradicional reduto petista, o cinturão vermelho registrou um dos melhores resultados do PT em São Paulo. Na eleição de 2010, a presidente Dilma Rousseff venceu em 28 dos 39 municípios da região metropolitana. Juntas, essas cidades concentram 14, 4 milhões de eleitores, quase a metade do Estado (47,7%). Excluindo a capital, comandada por Gilberto Kassab (DEM), as demais cidades da região somam 6 milhões de eleitores. É um eleitorado maior que o de Estados do Norte ou Nordeste e corresponde ao número de eleitores de Pernambuco.
 
Alckmin sinaliza aos prefeitos dessas cidades uma relação mais próxima do que a mantida pelos governos anteriores. O prefeito de Guarulhos, Sebastião Almeida (PT), reclama da falta de diálogo com outras gestões e diz que isso impediu que muitos projetos "saíssem do papel", como a construção de piscinões para evitar enchentes. "Os governos municipais fazem um esforço imenso para atender as demandas da população e o Estado sempre teve uma postura distante", alega Almeida.

Em seu terceiro mandato, o prefeito de Mauá, Oswaldo Dias, também petista, reforça a crítica à falta de proximidade de gestões estaduais anteriores com os municípios, em especial nas áreas de transporte coletivo, saúde e defesa civil. No entanto, Dias afirma que já foi procurado pelo governador Alckmin para tratar de problemas relacionados às fortes chuvas deste mês, que marcaram o município.

À frente da aproximação da gestão tucana com as prefeituras da região metropolitana está um dos maiores aliados políticos do governador dentro do PSDB. O secretário Edson Aparecido foi líder do governo Alckmin na gestão anterior e um dos principais articuladores da campanha presidencial do tucano em 2006. Aparecido tem bom trânsito com prefeitos e parlamentares de diferentes partidos.

O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), elogia a iniciativa do governo Alckmin. "Antes tarde do que nunca. É impensável fazer a gestão da região metropolitana de São Paulo sem um mecanismo de organização", afirma Marinho. O prefeito de São Bernardo já conversou por telefone com o secretário de Desenvolvimento Metropolitano. Segundo Marinho, o apoio à ações conjuntas de governos municipais e estadual é unânime entre os prefeitos. "Não há como resolver problemas de enchentes, transportes, violência e saúde sem uma coordenação da gestão", afirma.

Para o prefeito da cidade onde vive o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o projeto está acima das disputas partidárias no Estado. "É uma necessidade. Se formos pelo olhar político-partidário, se inviabiliza", diz Marinho, que defende um trabalho de coordenação do governo estadual também com o governo federal. "O PT não se intimida com isso [a entrada do PSDB em territórios petistas]. Temos tranquilidade sobre esse assunto", diz.

Prefeito de Osasco, o petista Emidio de Souza diz que a competição política deve ser deixada de lado. "Não podemos torcer pelo pior, melhor. É uma necessidade de São Paulo, temos problemas comuns. Nunca teremos prefeitos da região e governador do mesmo partido", afirma.

Para o prefeito de Diadema, Mário Reali, a aproximação dos municípios com o governo estadual deve estar vinculada à destinação de mais recursos para a região metropolitana. "O centro da discussão tem que ser o repasse de recursos. É o principal. Isso tem de constar no Orçamento. Os recursos podem vir das empresas estatais, como a CPTM [trens metropolitanos], o metrô e a CDHU [habitação]", analisa. "As demandas hoje são metropolitanas. Nas áreas de transporte, habitação. É preciso ter mais articulação."

A escolha dos projetos será feita em conjunto, na reunião a ser marcada entre Aparecido e os prefeitos. Entre as ações coordenadas, o secretário estadual destaca a ampliação do sistema de bilhete único no transporte de massa da capital para as cidades da região metropolitana. Também defende obras de saneamento para conter as enchentes, além de projetos nas áreas de segurança, saúde e educação.

Para o presidente estadual do PT, Edinho Silva, "a criação da secretaria [de Desenvolvimento Metropolitano] é importante, mas o que vai resolver é ter política para a região metropolitana, o que passa por políticas de transportes de massa e de desenvolvimento econômico para os bolsões de pobreza da região ou às cidades-dormitório", diz Edinho.

O governo estadual tenta aprovar na Assembleia Legislativa um projeto para formalizar a região metropolitana, com 39 municípios. A proposta foi enviada por Alckmin em sua gestão anterior e, se aprovada, poderá criar um fundo para o financiamento de empreendimentos em comum na região. Entre as propostas em debate na Assembleia está o depósito de recursos proporcionalmente à população por Estados e municípios.

A aproximação com as prefeituras pode render mais recursos ao governo estadual, comenta o prefeito de Suzano, Marcelo Candido (PT). "Os recursos que o governo federal enviar para obras de saneamento dos municípios serão administrados pela empresa do Estado. Com isso, o governo estadual também ganha. O mesmo acontecerá com obras de infraestrutura, como o Rodoanel", comenta o prefeito. Se houver mais obras em comum, diz Candido, aumentarão os repasses da União para o Estado. "A integração dos municípios é uma questão recorrente e o governo estadual nunca fez um programa estruturante para essas cidades", diz Candido. Como exemplo da dificuldade na integração com o governo estadual, o prefeito cita a elaboração de projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "O governo estadual apresentou grandes projetos, sem discuti-los com os prefeitos", reclama o prefeito de Suzano.

Além de tentar azeitar a relação com os municípios petistas, o governador Alckmin tem acenado também ao governo da presidente Dilma Rousseff, o que deve ajudá-lo na captação de recursos federais para investimentos no Estado. Em sua gestão anterior (2001-2006), o tucano não teve um bom entendimento com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ontem, em evento de aniversário da cidade de São Paulo, a presidente Dilma indicou que deve manter parcerias e investimentos com o governo Alckmin e com o prefeito da capital, Gilberto Kassab (DEM).

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